Terça-feira, 21 de Abril de 2009

O petróleo não é tudo JR

[APANHADO DAS IDEIAS - RELATIVO AOS ÚLTIMOS DIAS]

Enquanto me pergunto se é correcto começar um texto pela conjunção subordinativa enquanto, pergunto-me da mesma forma - arrebatado pela mesmíssima intensidade - por onde começar a narrativa dos últimos dias. Subordino-me pois a uma conjunção cadenciada e aleatória de eventos num único sopro. Inspiro. Inspiro. Inspiro. Solto o ar comprido por aí abaixo.

Há um carro estacionado em 1987. Um Ford Sierra verde garrafa de vinho tinto, com os faróis apagados, a apontar no sentido do Piolho, a quarenta ou cinquenta metros de lá. É sábado à noite, estamos a meio de abril, a primavera não é primavera, não é ela, é ele, o inverno, vestido de mulher. Um travesti de estação. Ano 2009. O carro estacionado há 22 anos, canta pelos ouvidos, perdão, por janelas de vidros descidos. Dois monos estão encontados até mais não para trás nos bancos da frente. Um abana os óculos de sol com a cabeça. O outro abana a boca para dizer "this corrosion" em ritmo de canção. Alheio-me desta imagem gótico-mórbida, atravesso para pagar o parque dos Clérigos no Piolho, sempre com a impressão de que os dois brutamontes estão ali à espera de alguém minimamente disposto a ter problemas. Eu não. Só levo no bolso um euro e vinte e por norma não estou a disposto a trazer para casa uma qualquer confusão a custo zero. Ainda para mais uma situação retroactiva, com dois ouvintes parados no tempo, mas exibindo a cassete como se na fita estivesse gravada uma notícia de última hora.



Adiante.
Adorava poder comprar um livro na Casa da Cerveja. Como este meu desejo é impossível de satisfazer, contento-me com o lado inverso da coisa. Compro uma, uma não, duas! Compro duas cervejas na Casa do Livro. Eles estão em todos os andares da estante, de lombada virada para a pista, por cima do DJ. Conclusões: é mais fácil dar música do que passar a palavra; é mais fácil vender álcool do que dar vazão ao papel empilhado nos armazéns. Seja feito então o negócio do facilitismo em dois ou três copos de três. Tchim-tchim.

Adiante.
Continuo sem saber se lhe continue a chamar sábado à noite ou se já lhe deva chamar domingo de manhã. Deixo o momento custódio, sem nome, filho de pai incógnito, se é que faço entender. Continuo a chamar-lhe hoje e digo que hoje houve festa da revista Maxmem. O glamour, escasso, que lhe resta, fica pelas páginas, e em poucas. Neste armazém, esta não é uma festa de mulheres habituadas à palavra sugestão. É mais uma cena de filme de homens habituados a ouvir não.
Copos de plástico às centenas partidos no chão. Um gordo disfarçado por baixo de roupas largas de rap finge golpes de hip-hop e só merece um golpe de misericórdia: tirem-lhe o micro da mão. Ele e o artefacto, os dois quando em união, fazem muito mal à saúde das pessoas.
Bebé, vamos embora sem chorar 30 euros. Não há preço para o amor que daqui sai abraçado.

Adiante.
Afinal já segunda-feira. E segunda-feira ao fim da tarde. Vou correr. Quanto tempo até à praia da Aguda? Já demoro só duas músicas dos GNR. O petróleo não é tudo JR. Acorda, muda de figura.

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