Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Nem morto

[VIAGEM POR MIM ADENTRO -I-]

Um dia destes páro antes de morrer e ponho as saudades todas em dia. Não vou para debaixo do mundo sem antes, um dia, por uma vez que seja, voltar a chutar em arco entre a trave e poste, uma bola branca de gomos pretos.
Mal de mim se no dia em que tiver de ensurdecer para sempre, não tiver ouvido ainda que por segundos, o barulho das teclas de uma máquina de escrever. E correr a folha para mudar de linha. E puxar a prosa para pousar ao lado.
Ao lado. Quando tiver de ser que seja ao lado de uma boca fechada, desde que tenha por cima um par de olhos que falam. Pode ser de um dia para outro, desde que na véspera tenha corrido de braços abertos, pés na erva e calcanhares no cú. E um berro na língua. Como quando se utilizava a expressão ir à fruta.
Este que para aqui está, está com saudades de matar saudades. Não de pessoas, mas de coisas. Pessoas há nos dias todos. Coisas que fazemos quando ficamos felizes, nem tanto.
Um dia destes páro antes de voltar a morrer e vou esgueirar-me na garagem abandonada, trancada a cadeado do senhor Ângelo. Aperto a galheta do óleo e mato a ferrugem do cadeado. Pego num alicate, para o caso de não encontrar chaves, e corto o aloquete. Que saudades de dizer alicate e aluquete. Colo os furos, já não me lembrava que a cola cheirava assim e se aplicava assado. Antes de ir embora, subo para o banco preto da XF-17 verde garrafa e saboreio o cheiro a novo da motorizada. Cuidado com o descanso para não cair. Está bem agarrada ao chão. É dar ao kicks e fazer barulho com os lábios e já vou quase a 100 a hora. Sem capacete porque é mais à méne. Que saudades de dizer coisas que um dia morreram num qualquer lugar da mais louca maratona do mundo, esta coisa da vida.
E se a morte vier, antes da linha em que ia começar a ter talento, rasguem a folha por mim. Escrevam qualquer coisa sem ponto final. Prometo não ir sem ter virado à esquerda, na rua que leva ao mar, onde todos os dia pela manhã, o frio da areia nos pés é como se fosse a primeira vez.

5 comentários:

raquel disse...

Bela descoberta a deste blogue :)

Que, por aqui, só haja recolher obrigatório das palavras por razões de força maior, como colocar as saudades todas em dia.

António Reis disse...

obrigado pelo comentário e pelo link também :)

António Reis disse...

obrigado pelo comentário e pelo link também :)

Gala Dmitrievna disse...

E ao dia 14 de Junho do honorável ano de 2009 , eis um blogue que me surpreende .

Gostei imenso do que já li.

take care ;)

António Reis disse...

olá. Muito obrigado. Volte sempre ;)