quarta-feira, 17 de Junho de 2009

3 minutos

[A VIDA EM ROUNDS]

Nas próximas duas horas, uma palavra: concentração. Ela é o princípio de tudo. É suficiente para iludir a dor, seja ela, a dor, pelo cansaço ou por alguma pancada mal evitada ou não evitada de todo. É a mais consciente das formas inconscientes para dominar a respiração. Esta concentração - de concentrado, que não de ajuntamento de gente - tem os minutos contados: são três. O minuto seguinte é uma ponte onde se descansa o corpo, sem nunca deixar que a cabeça olhe para o lado e perca o essencial do treino. Neste minuto, a concentração é deixada em piloto automático. Até que o cd, gravado nas horas livres de um dj, leve a música com batidas fortes aos três toques de uma campainha. Aí começa tudo de novo. O mundo só volta a ser mundo dentro de três minutos. Até lá, o corpo ordena ao corpo que não existe mais nada para além do corpo. Excepto dois movimentos: defesa (sempre) e ataque (para utilizar pela certa ou então quando o ataque adversário chega ao ponto de ser massivo).

A parede é amarela. Duas tábuas longas, agarradas por suportes de ferro enferrujados, são prateleiras curtas. Em cima de uma e de outra estão pares de luvas velhas. Servem para dar um ar de ginásio de boxe ao ginásio de boxe e servem para dar um ar de pugilista a quem vem com a ideia de um treino de boxe para experimentar. Ao lado das tábuas, numa linha recta imaginária à prateleira de cima, há um prego na parede. O prego segura cordas de nylon. Olho para lá e imagino um arco-íris. Pensando bem sobre isso, é melhor não pensar isto sobre aquilo, porque assim de repente não vejo mais nenhum pugilista a chegar ali e a imaginar o que acabei de imaginar. Estou aqui, estou a merecer levar um soco.
Tiro uma cor do arco-íris... (Bem, se as metáforas continuam...) tiro uma corda preta do prego e levo-a para lá dos sacos de boxe. No fundo, mas no fundo, no fundo mesmo, uma imagem ao longe, que devo ser eu reflectido, vai ser imagem para quinze minutos, durante os quais homem e corda são uma máquina de exercício.
- Sombra!!
Sombra é palavra de ordem para repetir golpes e esquivas, sem luvas, em períodos contados pelo cd, uma gravação em forma de bomba-relógio. Serei sombra neste e em mais 3 grupos de três minutos intervalados pelo tal minuto de piloto automático. Nesta fase, as fitas brancas já foram enroladas à vez numa mão, noutra mão, presas com velcro sobre os pulsos.
- Técnicas!!!
Técnicas são os golpes repetidos, em par, sem contacto de luta. Um coloca os braços para os golpes do outro, à vez. Directo, cross, gancho. Com esquivas à mistura. Tudo coordenado. Sem parar, durante três minutos.
-Saco!!!
Saco é o que palavra define. Saco é 3 minutos atrás de 3 minutos de luvas nas mãos e mãos e braços apontados à pressão da areia ensacada.
- Contacto!!!
Contacto é um jogo leal entre dois homens que supostamente já aprenderam a não recear o medo. Um vai ganhar, o outro vai aceitar a derrota. E de derrota em derrota vai deixando de ser o pior. Até o dia em que deixa de ter medo de ganhar.

No final do treino, abdominais e flexões. E àgua por favor, se não tiver sido bebida quando o cérebro guiava o homem quando o mundo tinha deixado de ser mundo. É tirar a camisola de alças e torcer. Respirar fundo. Desconcentrar. O corpo ficou com fome. Estou capaz de ficar à mesa durante uns bons 15 rounds de 3 minutos.

2 comentários:

PEDRO disse...

Muiiitoooo Boommm!!!!!

Gostei Amigo!

Está muito bem Escrito e Descrito!

O Boxe é Muito Mais que um Desporto! É Muito Mais que dois Homens que combatem no Ring! O Boxe entranha-se nos poros! É Atitude perante nós mesmos e o outro! É Disciplina levada quase ao Limite! É sentir Vontade de ir treinar! É Sentirmo-nos Bem após a dureza de um treino! Sentimo-nos assim porque sabemos que demos muito mais que ao Nosso Corpo... Demos (e Muito) á Nossa Alma!

Pedro Lemos

António Reis disse...

merci mon ami Pierre;)