Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Loureiro

Ao sair pela porta da frente, voltando à esquerda e ao descer as escadas voltando a voltar, desta vez para trás, há um filme de bollywood a acontecer em tempo real nas costas da estação de comboios. A história, contada sem legendas nem guião, tem na primeira cena as portas abertas dos vaiśya e nas montras nasceram jardins urbanos, onde não há tempo para as flores, mas há canteiros para relógios em fila, por baixo de fila, por baixo de fila. Sem legendas, um vaiśya agarra pela mão do filho, por baixo de um pulso sem relógio, porque já são horas, aos seis anos, de deixar a bola na rua, os amigos na rua, as meninas na rua, o cão, a bicicleta e a infância na rua, à porta da loja. São horas de entrar, são horas de ver, são horas de aprender, de abrir a caixa e registar, são horas de acordar para a vida, a vida de um vaiśya, um comerciante, poderíamos ler nas legendas, se as houvesse, neste filme em tempo real, a acontecer nas traseiras da estação de S.Bento. Não é preciso. Isso tudo está escrito nos socalcos com relógios nas montras a ver passar a rua do Loureiro.

A chegar ao teatro de nacional de S.João, ao chegar não, acabando de passar teatro nacional de S.João, do lado esquerdo de quem caminha para a Batalha, no interior minúsculo de uma loja, podia ser um raio de sol entre a chuva, mas não é, é a rapariga do balcão dos aparelhos de som para surdos ou quase, profissão que em nada a impede de dar nas vistas.

Um pouco mais longe da tralha de bollywood, uma montra ameaça vender por 6 euros um relógio Cassio que custava 10 mais perto da estação do comboio. Ver de perto dá resultado. O relógio não é Cassio, é Coss. E assim se poupou meia dúzia de euros. posto isto era uma questão de tempo até que os relógios viessem para a rua e eles vieram, em Santa Catarina, vieram e viajava em primeira classe não mão de um cigano. Porsche Design. Abdicamos da esmola, em desconfiando.

O caminho daí em diante fez passar mesmo aqui ao lado um senhor bem barbeado. Trazia na cara a mistura inteira do creme de barba espalhado num pincel de cabelo comprido, com as mãos e rosto lavados antes com sabonete embrulhado em papel, com o after-shave de longa-duração e personalidade própria.

O regresso ao comboio deu de caras com a dificuldade de encontrar um género para o agente da polícia na casa dos 41 anos. Serias tu, Callioppe Stephanides?

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