Há 2 horas
terça-feira, 4 de Agosto de 2009
...
gostei de poucos lugares como gostei deste. mudo para o primeiro título de um blogue. um lugar aberto há 6 anos websidestory . Obrigado a todos, por tudo.
quarta-feira, 17 de Junho de 2009
3 minutos
[A VIDA EM ROUNDS]
Nas próximas duas horas, uma palavra: concentração. Ela é o princípio de tudo. É suficiente para iludir a dor, seja ela, a dor, pelo cansaço ou por alguma pancada mal evitada ou não evitada de todo. É a mais consciente das formas inconscientes para dominar a respiração. Esta concentração - de concentrado, que não de ajuntamento de gente - tem os minutos contados: são três. O minuto seguinte é uma ponte onde se descansa o corpo, sem nunca deixar que a cabeça olhe para o lado e perca o essencial do treino. Neste minuto, a concentração é deixada em piloto automático. Até que o cd, gravado nas horas livres de um dj, leve a música com batidas fortes aos três toques de uma campainha. Aí começa tudo de novo. O mundo só volta a ser mundo dentro de três minutos. Até lá, o corpo ordena ao corpo que não existe mais nada para além do corpo. Excepto dois movimentos: defesa (sempre) e ataque (para utilizar pela certa ou então quando o ataque adversário chega ao ponto de ser massivo).
A parede é amarela. Duas tábuas longas, agarradas por suportes de ferro enferrujados, são prateleiras curtas. Em cima de uma e de outra estão pares de luvas velhas. Servem para dar um ar de ginásio de boxe ao ginásio de boxe e servem para dar um ar de pugilista a quem vem com a ideia de um treino de boxe para experimentar. Ao lado das tábuas, numa linha recta imaginária à prateleira de cima, há um prego na parede. O prego segura cordas de nylon. Olho para lá e imagino um arco-íris. Pensando bem sobre isso, é melhor não pensar isto sobre aquilo, porque assim de repente não vejo mais nenhum pugilista a chegar ali e a imaginar o que acabei de imaginar. Estou aqui, estou a merecer levar um soco.
Tiro uma cor do arco-íris... (Bem, se as metáforas continuam...) tiro uma corda preta do prego e levo-a para lá dos sacos de boxe. No fundo, mas no fundo, no fundo mesmo, uma imagem ao longe, que devo ser eu reflectido, vai ser imagem para quinze minutos, durante os quais homem e corda são uma máquina de exercício.
- Sombra!!
Sombra é palavra de ordem para repetir golpes e esquivas, sem luvas, em períodos contados pelo cd, uma gravação em forma de bomba-relógio. Serei sombra neste e em mais 3 grupos de três minutos intervalados pelo tal minuto de piloto automático. Nesta fase, as fitas brancas já foram enroladas à vez numa mão, noutra mão, presas com velcro sobre os pulsos.
- Técnicas!!!
Técnicas são os golpes repetidos, em par, sem contacto de luta. Um coloca os braços para os golpes do outro, à vez. Directo, cross, gancho. Com esquivas à mistura. Tudo coordenado. Sem parar, durante três minutos.
-Saco!!!
Saco é o que palavra define. Saco é 3 minutos atrás de 3 minutos de luvas nas mãos e mãos e braços apontados à pressão da areia ensacada.
- Contacto!!!
Contacto é um jogo leal entre dois homens que supostamente já aprenderam a não recear o medo. Um vai ganhar, o outro vai aceitar a derrota. E de derrota em derrota vai deixando de ser o pior. Até o dia em que deixa de ter medo de ganhar.
No final do treino, abdominais e flexões. E àgua por favor, se não tiver sido bebida quando o cérebro guiava o homem quando o mundo tinha deixado de ser mundo. É tirar a camisola de alças e torcer. Respirar fundo. Desconcentrar. O corpo ficou com fome. Estou capaz de ficar à mesa durante uns bons 15 rounds de 3 minutos.
Nas próximas duas horas, uma palavra: concentração. Ela é o princípio de tudo. É suficiente para iludir a dor, seja ela, a dor, pelo cansaço ou por alguma pancada mal evitada ou não evitada de todo. É a mais consciente das formas inconscientes para dominar a respiração. Esta concentração - de concentrado, que não de ajuntamento de gente - tem os minutos contados: são três. O minuto seguinte é uma ponte onde se descansa o corpo, sem nunca deixar que a cabeça olhe para o lado e perca o essencial do treino. Neste minuto, a concentração é deixada em piloto automático. Até que o cd, gravado nas horas livres de um dj, leve a música com batidas fortes aos três toques de uma campainha. Aí começa tudo de novo. O mundo só volta a ser mundo dentro de três minutos. Até lá, o corpo ordena ao corpo que não existe mais nada para além do corpo. Excepto dois movimentos: defesa (sempre) e ataque (para utilizar pela certa ou então quando o ataque adversário chega ao ponto de ser massivo).
A parede é amarela. Duas tábuas longas, agarradas por suportes de ferro enferrujados, são prateleiras curtas. Em cima de uma e de outra estão pares de luvas velhas. Servem para dar um ar de ginásio de boxe ao ginásio de boxe e servem para dar um ar de pugilista a quem vem com a ideia de um treino de boxe para experimentar. Ao lado das tábuas, numa linha recta imaginária à prateleira de cima, há um prego na parede. O prego segura cordas de nylon. Olho para lá e imagino um arco-íris. Pensando bem sobre isso, é melhor não pensar isto sobre aquilo, porque assim de repente não vejo mais nenhum pugilista a chegar ali e a imaginar o que acabei de imaginar. Estou aqui, estou a merecer levar um soco.
Tiro uma cor do arco-íris... (Bem, se as metáforas continuam...) tiro uma corda preta do prego e levo-a para lá dos sacos de boxe. No fundo, mas no fundo, no fundo mesmo, uma imagem ao longe, que devo ser eu reflectido, vai ser imagem para quinze minutos, durante os quais homem e corda são uma máquina de exercício.
- Sombra!!
Sombra é palavra de ordem para repetir golpes e esquivas, sem luvas, em períodos contados pelo cd, uma gravação em forma de bomba-relógio. Serei sombra neste e em mais 3 grupos de três minutos intervalados pelo tal minuto de piloto automático. Nesta fase, as fitas brancas já foram enroladas à vez numa mão, noutra mão, presas com velcro sobre os pulsos.
- Técnicas!!!
Técnicas são os golpes repetidos, em par, sem contacto de luta. Um coloca os braços para os golpes do outro, à vez. Directo, cross, gancho. Com esquivas à mistura. Tudo coordenado. Sem parar, durante três minutos.
-Saco!!!
Saco é o que palavra define. Saco é 3 minutos atrás de 3 minutos de luvas nas mãos e mãos e braços apontados à pressão da areia ensacada.
- Contacto!!!
Contacto é um jogo leal entre dois homens que supostamente já aprenderam a não recear o medo. Um vai ganhar, o outro vai aceitar a derrota. E de derrota em derrota vai deixando de ser o pior. Até o dia em que deixa de ter medo de ganhar.
No final do treino, abdominais e flexões. E àgua por favor, se não tiver sido bebida quando o cérebro guiava o homem quando o mundo tinha deixado de ser mundo. É tirar a camisola de alças e torcer. Respirar fundo. Desconcentrar. O corpo ficou com fome. Estou capaz de ficar à mesa durante uns bons 15 rounds de 3 minutos.
Etiquetas:
Todos os dias,
Uma história por um euro
segunda-feira, 15 de Junho de 2009
É o hábito
[ILUDIR AS APARÊNCIAS]
Não gosto de dizer coisas sobre a actualidade, nacional ou internacional. Excepto quando actualidade vem na poeira do ar, disposta a ferir a vista e a fazer comichões no cérebro. Foi assim num dia destes. Surpreendido pelo pó do deserto, num corredor apinhado de gente na feira de Espinho.
Começo por soltar uma gargalha daquelas que são proibidas depois das onze da noite em qualquer zona residencial. É que aqui, nesta banca com base de cartão velho, descubro ser possível vestir a pele de um ditador de um país de outros deuses por doze ou treze euros. Fico tentado a experimentar a roupinha tipo de um homem nuclear. O casaco desengraçado, cinzento, cor de tudo menos gosto. A camisa na mesmíssima linha envergonhada, igualmente murcha de tom, mas com colarinhos tesos. Uma coisa não compensa a outra. Apresentem o technicolor ao senhor, se faz favor.
Ao imaginar a figura, se me decidir por experimentar o conjunto, vou daqui num instante aos Carvalhos. Na barbearia do largo principal, naquela cadeira onde já não me sento desde nos doze anos, nessa cadeira não me há-de ser difícil conseguir um corte risco ao lado da esquerda alta para a direita baixa. Mas isso seria um golpe de estado na liberdade capilar de um rapaz de crista levantada.
Não gosto de dizer coisas sobre a actualidade, nacional ou internacional. Excepto quando actualidade vem na poeira do ar, disposta a ferir a vista e a fazer comichões no cérebro. Foi assim num dia destes. Surpreendido pelo pó do deserto, num corredor apinhado de gente na feira de Espinho.
Começo por soltar uma gargalha daquelas que são proibidas depois das onze da noite em qualquer zona residencial. É que aqui, nesta banca com base de cartão velho, descubro ser possível vestir a pele de um ditador de um país de outros deuses por doze ou treze euros. Fico tentado a experimentar a roupinha tipo de um homem nuclear. O casaco desengraçado, cinzento, cor de tudo menos gosto. A camisa na mesmíssima linha envergonhada, igualmente murcha de tom, mas com colarinhos tesos. Uma coisa não compensa a outra. Apresentem o technicolor ao senhor, se faz favor.
Ao imaginar a figura, se me decidir por experimentar o conjunto, vou daqui num instante aos Carvalhos. Na barbearia do largo principal, naquela cadeira onde já não me sento desde nos doze anos, nessa cadeira não me há-de ser difícil conseguir um corte risco ao lado da esquerda alta para a direita baixa. Mas isso seria um golpe de estado na liberdade capilar de um rapaz de crista levantada.
terça-feira, 9 de Junho de 2009
Não cabe no sono de um beijo
[UMA VOLTINHA DE TRAZER POR CASA]
Homem de meia idade dedica uns minutos à velha tarefa diária que se inicia com uma aproximação visual cuidada ao cabelo da mulher. O olhar é um verbo cirúrgico. Que lhe apraz conjugar num estado dormente. Condição imprescindível para chegar até onde é possível ver a olho nú. E diluir. Refractar imagens.
Cair descalço onde a onda termina. Frio, de baixo a alto.
Correr é um verbo lento. Vagueia a uma velocidade devagar. Vai à casa mais ao fundo, a subir, antes da curva. Ao lado esquerdo. Onde a pressa fica à porta. E ver é um verbo da cor do pôr do sol.
Mal lá chegado jura uma noite de tempo parado e minutos para sempre. Ela responde que a promessa não cabe no sono de um beijo.
Homem de meia idade dedica uns minutos à velha tarefa diária que se inicia com uma aproximação visual cuidada ao cabelo da mulher. O olhar é um verbo cirúrgico. Que lhe apraz conjugar num estado dormente. Condição imprescindível para chegar até onde é possível ver a olho nú. E diluir. Refractar imagens.
Cair descalço onde a onda termina. Frio, de baixo a alto.
Correr é um verbo lento. Vagueia a uma velocidade devagar. Vai à casa mais ao fundo, a subir, antes da curva. Ao lado esquerdo. Onde a pressa fica à porta. E ver é um verbo da cor do pôr do sol.
Mal lá chegado jura uma noite de tempo parado e minutos para sempre. Ela responde que a promessa não cabe no sono de um beijo.
quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Hoje foi um dia longo numa estrada estreita
[GARIMPEIRO SEM PENEIRA TAMBÉM É GARIMPEIRO?]
Siga para Fafe. Porque diz que há um monte de tijolos carbonizados, aterrados, num estreito verde, num caminho que nos há-de ser difícil de encontrar. Siga.
Uma anã desce com dificuldade de uma cadeira amarela de plástico oferecida por um gigante financeiro do chá gelado. Subam, diz-nos, virem depois da cruz azul, continua a dizer-nos, que é sempre a descer. E boa tarde, conclui, como se fosse possível a tarde poder vir a ser boa de barriga vazia desde as 7 da manhã, em direcção a um lugar onde um homem foi explodido numa fábrica ilegal de foguetes.
No local, as autoridades, que mal falam português, juram a pés juntos que o material pirotécnico é chinês. Pés juntos é capaz de não ser a melhor das expressões pela natureza grave dos factos ocorridos.
[Dois minutos, se faz favor, que é para ver se dá para convencer o estômago de que um pão com queijo é uma refeição completa.]
No fim da curva, onde o caminho estreita e asfalto levanta, um homem jura que há dois meses o dono do armazém rebentado pela pólvora lhe jurou que ali não se passava nada. Ao lado corre um espelho de água, com a exacta espessura de um espelho, onde o infortunado pirotécnico tentou mergulhar a dor.
Uma imagem, outra e mais outra, como se fosse possível retratar a desgraça de um homem só, perdido no meio do bosque, num negócio solitário para ganhar mais uns cobres. E porquê fazer isso? Porque do outro lado há alguém sentado num sofá, cheio de vontade de ver a miséria do mundo, miséria essa que ao fim e ao cabo no final do dia lhe vai lhe vai pintar a própria realidade com cores mais alegres do que o cinzento de tantas inquietações. Ou então será porque deste lado já existem pessoas que olham para a desgraça da mesma forma que um velho garimpeiro olhava para algo brilhante no leito do riacho.
É triste, não deixando de ser verdade: a má notícia é o momento em que muito boa gente mais se aproxima do orgasmo. Quem discorda, tende a ficar fodido. Literalmente.
Siga para Fafe. Porque diz que há um monte de tijolos carbonizados, aterrados, num estreito verde, num caminho que nos há-de ser difícil de encontrar. Siga.
Uma anã desce com dificuldade de uma cadeira amarela de plástico oferecida por um gigante financeiro do chá gelado. Subam, diz-nos, virem depois da cruz azul, continua a dizer-nos, que é sempre a descer. E boa tarde, conclui, como se fosse possível a tarde poder vir a ser boa de barriga vazia desde as 7 da manhã, em direcção a um lugar onde um homem foi explodido numa fábrica ilegal de foguetes.
No local, as autoridades, que mal falam português, juram a pés juntos que o material pirotécnico é chinês. Pés juntos é capaz de não ser a melhor das expressões pela natureza grave dos factos ocorridos.
[Dois minutos, se faz favor, que é para ver se dá para convencer o estômago de que um pão com queijo é uma refeição completa.]
No fim da curva, onde o caminho estreita e asfalto levanta, um homem jura que há dois meses o dono do armazém rebentado pela pólvora lhe jurou que ali não se passava nada. Ao lado corre um espelho de água, com a exacta espessura de um espelho, onde o infortunado pirotécnico tentou mergulhar a dor.
Uma imagem, outra e mais outra, como se fosse possível retratar a desgraça de um homem só, perdido no meio do bosque, num negócio solitário para ganhar mais uns cobres. E porquê fazer isso? Porque do outro lado há alguém sentado num sofá, cheio de vontade de ver a miséria do mundo, miséria essa que ao fim e ao cabo no final do dia lhe vai lhe vai pintar a própria realidade com cores mais alegres do que o cinzento de tantas inquietações. Ou então será porque deste lado já existem pessoas que olham para a desgraça da mesma forma que um velho garimpeiro olhava para algo brilhante no leito do riacho.
É triste, não deixando de ser verdade: a má notícia é o momento em que muito boa gente mais se aproxima do orgasmo. Quem discorda, tende a ficar fodido. Literalmente.
quarta-feira, 27 de Maio de 2009
Conversas do duodeno
[CONDUZIR SEM CARTA SOBRE UM PAR DE SEMANAS]
"Comece por explicar o título. Não, não. Diga antes porque não dá notícias vai para 15 dias."
Respondendo:
- Deixe estar. Por ser para si, respondo às duas. Segundo (a ausência), porque deixo para amanhã o que posso fazer hoje, porque deixo para amanhã, o que posso fazer hoje, porque deixo para amanhã o que posso fazer hoje ... [fica em loop]. E primeiro (o título) porque o corpo, legítimo proprietário destas mãos que vos contam tudo, vai de asneira em asneira (só para não dizer, de cagada em cagada, que é feio), trauteando erros de higiene íntima e lugares comuns.
Partindo deste pressuposto em direcção ao que vai ser dito em frente e por aí abaixo, conversas do duodeno, quer-me parecer o ponto geográfico mais interessante, porque aí acontecem as palavras que se dizem antes de se dizer merda outra vez.
Duodeno será também um bom lugar para colocar sem medo do resultado no ViaMichelim, click, verificar a distância e viajar até lá, sem ponta de receio dos custos com a portagem ou combustível, sem ter de ir forçosamente pelo percurso mais rápido. O importante é ir, chegar lá, criar raízes, no sítio, Duodeno (repito para que não se percam), onde se está invariavelmente após a digestão, seja das vitórias ou das derrotas. Na estrada que vai ligar ao mundo onde tudo se desfaz, de uma ou de outra forma, com mais ou menos força, de manhã, à tarde ou à noite.
A solução para os problemas estará sempre dentro de cada um de nós. E pronto! Tanta merda para acabar num lugar comum.
PS: a viagem sem carta referida no pós-título vem só a propósito de este ter sido um texto que não pediu licença para ser bem educado.
"Comece por explicar o título. Não, não. Diga antes porque não dá notícias vai para 15 dias."
Respondendo:
- Deixe estar. Por ser para si, respondo às duas. Segundo (a ausência), porque deixo para amanhã o que posso fazer hoje, porque deixo para amanhã, o que posso fazer hoje, porque deixo para amanhã o que posso fazer hoje ... [fica em loop]. E primeiro (o título) porque o corpo, legítimo proprietário destas mãos que vos contam tudo, vai de asneira em asneira (só para não dizer, de cagada em cagada, que é feio), trauteando erros de higiene íntima e lugares comuns.
Partindo deste pressuposto em direcção ao que vai ser dito em frente e por aí abaixo, conversas do duodeno, quer-me parecer o ponto geográfico mais interessante, porque aí acontecem as palavras que se dizem antes de se dizer merda outra vez.
Duodeno será também um bom lugar para colocar sem medo do resultado no ViaMichelim, click, verificar a distância e viajar até lá, sem ponta de receio dos custos com a portagem ou combustível, sem ter de ir forçosamente pelo percurso mais rápido. O importante é ir, chegar lá, criar raízes, no sítio, Duodeno (repito para que não se percam), onde se está invariavelmente após a digestão, seja das vitórias ou das derrotas. Na estrada que vai ligar ao mundo onde tudo se desfaz, de uma ou de outra forma, com mais ou menos força, de manhã, à tarde ou à noite.
A solução para os problemas estará sempre dentro de cada um de nós. E pronto! Tanta merda para acabar num lugar comum.
PS: a viagem sem carta referida no pós-título vem só a propósito de este ter sido um texto que não pediu licença para ser bem educado.
quinta-feira, 14 de Maio de 2009
O depressivo
[AVIEM ESTA RECEITA EM SUPOSITÓRIOS]
Quando era adolescente, por causa dele, os médicos receitavam anti-depressivos a todos os alunos da turma. O medicamento não devia fazer muito efeito, porque ele chegava quando já ninguém esperava por ele, a trinta segundos do segundo toque. O depressivo resistia inclusivamente - acho que é a primeira vez que escrevo inclusivamente - às doses industriais de rezas encomendadas pela associação de pais do colégio às carpideiras do Senhor da Pedra. É que Miramar é terra de gente fina, mas não passa sem se tentar afirmar no mapa ao dizer que um coice de boi ficou marcado numa rocha por milagre. Aconteceu há muitos anos, quando uma máquina fotográfica à mão era notícia e uma imagem gravada em movimento era um desenho do demónio.
O depressivo resistia inclusivamente - duas vezes - às alunicadas viagens de três bruxas ao fundo de mar em gemidos de porco a morrer à faca, com o joelhos cravados na areia. Ele mais cedo ou mais tarde acabava por deprimir bruxas, pais, alunos, professores e, pelo que consta, eu que não sou de inventar, digo, pelo que consta, até alguns canteiros mirravam no caminho quando ele passava a caminho da escola. Porquê? Porque era feliz e as pessoas por norma não suportam pessoas felizes. Atenção: não disse que ele era deprimido. Era depressivo. Porque deixava os outros nessa condição.
Quando era adolescente, por causa dele, os médicos receitavam anti-depressivos a todos os alunos da turma. O medicamento não devia fazer muito efeito, porque ele chegava quando já ninguém esperava por ele, a trinta segundos do segundo toque. O depressivo resistia inclusivamente - acho que é a primeira vez que escrevo inclusivamente - às doses industriais de rezas encomendadas pela associação de pais do colégio às carpideiras do Senhor da Pedra. É que Miramar é terra de gente fina, mas não passa sem se tentar afirmar no mapa ao dizer que um coice de boi ficou marcado numa rocha por milagre. Aconteceu há muitos anos, quando uma máquina fotográfica à mão era notícia e uma imagem gravada em movimento era um desenho do demónio.
O depressivo resistia inclusivamente - duas vezes - às alunicadas viagens de três bruxas ao fundo de mar em gemidos de porco a morrer à faca, com o joelhos cravados na areia. Ele mais cedo ou mais tarde acabava por deprimir bruxas, pais, alunos, professores e, pelo que consta, eu que não sou de inventar, digo, pelo que consta, até alguns canteiros mirravam no caminho quando ele passava a caminho da escola. Porquê? Porque era feliz e as pessoas por norma não suportam pessoas felizes. Atenção: não disse que ele era deprimido. Era depressivo. Porque deixava os outros nessa condição.
quarta-feira, 13 de Maio de 2009
Nem morto
[VIAGEM POR MIM ADENTRO -I-]
Um dia destes páro antes de morrer e ponho as saudades todas em dia. Não vou para debaixo do mundo sem antes, um dia, por uma vez que seja, voltar a chutar em arco entre a trave e poste, uma bola branca de gomos pretos.
Mal de mim se no dia em que tiver de ensurdecer para sempre, não tiver ouvido ainda que por segundos, o barulho das teclas de uma máquina de escrever. E correr a folha para mudar de linha. E puxar a prosa para pousar ao lado.
Ao lado. Quando tiver de ser que seja ao lado de uma boca fechada, desde que tenha por cima um par de olhos que falam. Pode ser de um dia para outro, desde que na véspera tenha corrido de braços abertos, pés na erva e calcanhares no cú. E um berro na língua. Como quando se utilizava a expressão ir à fruta.
Este que para aqui está, está com saudades de matar saudades. Não de pessoas, mas de coisas. Pessoas há nos dias todos. Coisas que fazemos quando ficamos felizes, nem tanto.
Um dia destes páro antes de voltar a morrer e vou esgueirar-me na garagem abandonada, trancada a cadeado do senhor Ângelo. Aperto a galheta do óleo e mato a ferrugem da cadeado. Pego num alicate, para o caso de não encontrar chaves, e corto o aluquete. Que saudades de dizer alicate e aluquete. Colo os furos, já não me lembrava que a cola cheirava assim e se aplicava assado. Antes de ir embora, subo para o banco preto da XF-17 verde garrafa e saboreio o cheiro a novo da motorizada. Cuidado com o descanso para não cair. Está bem agarrada ao chão. É dar ao kicks e fazer barulho com os lábios e já vou quase a 100 a hora. Sem capacete porque é mais à méne. Que saudades de dizer coisas que um dia morreram num qualquer lugar da mais louca maratona do mundo, esta coisa da vida.
E se a morte vier, antes da linha em que ia começar a ter talento, rasguem a folha por mim. Escrevam qualquer coisa sem ponto final. Prometo não ir sem ter virado à esquerda, na rua que leva ao mar, onde todos os dia pela manhã, o frio da areia nos pés é como se fosse a primeira vez.
Um dia destes páro antes de morrer e ponho as saudades todas em dia. Não vou para debaixo do mundo sem antes, um dia, por uma vez que seja, voltar a chutar em arco entre a trave e poste, uma bola branca de gomos pretos.
Mal de mim se no dia em que tiver de ensurdecer para sempre, não tiver ouvido ainda que por segundos, o barulho das teclas de uma máquina de escrever. E correr a folha para mudar de linha. E puxar a prosa para pousar ao lado.
Ao lado. Quando tiver de ser que seja ao lado de uma boca fechada, desde que tenha por cima um par de olhos que falam. Pode ser de um dia para outro, desde que na véspera tenha corrido de braços abertos, pés na erva e calcanhares no cú. E um berro na língua. Como quando se utilizava a expressão ir à fruta.
Este que para aqui está, está com saudades de matar saudades. Não de pessoas, mas de coisas. Pessoas há nos dias todos. Coisas que fazemos quando ficamos felizes, nem tanto.
Um dia destes páro antes de voltar a morrer e vou esgueirar-me na garagem abandonada, trancada a cadeado do senhor Ângelo. Aperto a galheta do óleo e mato a ferrugem da cadeado. Pego num alicate, para o caso de não encontrar chaves, e corto o aluquete. Que saudades de dizer alicate e aluquete. Colo os furos, já não me lembrava que a cola cheirava assim e se aplicava assado. Antes de ir embora, subo para o banco preto da XF-17 verde garrafa e saboreio o cheiro a novo da motorizada. Cuidado com o descanso para não cair. Está bem agarrada ao chão. É dar ao kicks e fazer barulho com os lábios e já vou quase a 100 a hora. Sem capacete porque é mais à méne. Que saudades de dizer coisas que um dia morreram num qualquer lugar da mais louca maratona do mundo, esta coisa da vida.
E se a morte vier, antes da linha em que ia começar a ter talento, rasguem a folha por mim. Escrevam qualquer coisa sem ponto final. Prometo não ir sem ter virado à esquerda, na rua que leva ao mar, onde todos os dia pela manhã, o frio da areia nos pés é como se fosse a primeira vez.
segunda-feira, 11 de Maio de 2009
O breviário do amor
Estava aqui sentado na varanda virtual, com um beijo guardado no bolso das calças, junto ao lenço da mão. É para ti. Esteve toda a noite no fundo do coração.
quinta-feira, 7 de Maio de 2009
Nunca na vida
[O DIA EM QUE A BOLA NÃO FOI AO COLISEU]
Vamos começar a semana no coliseu. Do Porto. Vamos começar por volta das nove da noite, nove em ponto para ser exacto, e vamos começar com as pessoas na escadaria, a sessenta minutos da hora certa de um concerto. Vamos começar por dizer qua já existe uma fila a chegar aos degraus, que essa fila é juvenil, unisexo, que veste de acordo com a idade e que tem meia dúzia de casais de pais a dar um beijo e a dizer até logo.
Do lado esquerdo da entrada, perto do corredor que vai levar ao Passos Manuel, um jogador do FC do Porto ainda tem guardada uma câmara de filmar que se há-de vir a revelar com bateria de longa duração num camarote perto de si, Brandi Carlile.
Mas vamos antes de tudo isto continuar a descer a rua e virar nos semáforos à direita e subir depois em direcção ao ViaCatarina. Dir-se-á em sentido figurado que o passeio às montras de shopping é coisa de bater com o nariz na porta. Shopping fechado às nove da noite? De regresso, ao local de partida, em frente ao hotel com fachada de época, 3 europeus despedem-se de 3 orientais. Não tarda nada uma norte-americana de Washington sobe ao palco trazida pelas ondas gaseificadas e pela espuma branca de uma cerveja portuguesa. Deve ser a isto que chamam globalização.
Este é para mim um concerto de low-cost. A custo zero, se quiser honesto dos pés à cabeça. Qualquer coisa que não tenha preço tende a ser encarada de uma forma desvalorizada.
No camarote mais ao nível do palco, do lado dinheiro de quem entra, o jogador do FC Porto vai mudando a câmara de filmar de mão para descansar os braços às vez, como se os braços fossem jogadores nas substituições do andebol, mas sempre em modo record. Amanhã de manhã, quando chegar ao centro de treinos do Olival, não me vai parecer muito justo quando me disserem qua só posso recolher 15 minutos de imagem, mas a diante.
Brandi Carlile resumindo e concluindo. Canta bem, muitas vezes canta até muito bem, mas aconselho a levar algumas músicas ao photoshop. E já agora: desligue a fotocopiadora quando estiver no processo criativo. Não sei bem o que dizer dos momentos karaoke em que menina decidiu ir até Radiohead, John Lennon, Johnny Cash e Jeff Buckley. É quase como se o tal jogador do FC Porto desatasse a querer ser Maradona, Pelé, Eusébio e Zidane em campo. Nunca na vida.
Vamos começar a semana no coliseu. Do Porto. Vamos começar por volta das nove da noite, nove em ponto para ser exacto, e vamos começar com as pessoas na escadaria, a sessenta minutos da hora certa de um concerto. Vamos começar por dizer qua já existe uma fila a chegar aos degraus, que essa fila é juvenil, unisexo, que veste de acordo com a idade e que tem meia dúzia de casais de pais a dar um beijo e a dizer até logo.
Do lado esquerdo da entrada, perto do corredor que vai levar ao Passos Manuel, um jogador do FC do Porto ainda tem guardada uma câmara de filmar que se há-de vir a revelar com bateria de longa duração num camarote perto de si, Brandi Carlile.
Mas vamos antes de tudo isto continuar a descer a rua e virar nos semáforos à direita e subir depois em direcção ao ViaCatarina. Dir-se-á em sentido figurado que o passeio às montras de shopping é coisa de bater com o nariz na porta. Shopping fechado às nove da noite? De regresso, ao local de partida, em frente ao hotel com fachada de época, 3 europeus despedem-se de 3 orientais. Não tarda nada uma norte-americana de Washington sobe ao palco trazida pelas ondas gaseificadas e pela espuma branca de uma cerveja portuguesa. Deve ser a isto que chamam globalização.
Este é para mim um concerto de low-cost. A custo zero, se quiser honesto dos pés à cabeça. Qualquer coisa que não tenha preço tende a ser encarada de uma forma desvalorizada.
No camarote mais ao nível do palco, do lado dinheiro de quem entra, o jogador do FC Porto vai mudando a câmara de filmar de mão para descansar os braços às vez, como se os braços fossem jogadores nas substituições do andebol, mas sempre em modo record. Amanhã de manhã, quando chegar ao centro de treinos do Olival, não me vai parecer muito justo quando me disserem qua só posso recolher 15 minutos de imagem, mas a diante.
Brandi Carlile resumindo e concluindo. Canta bem, muitas vezes canta até muito bem, mas aconselho a levar algumas músicas ao photoshop. E já agora: desligue a fotocopiadora quando estiver no processo criativo. Não sei bem o que dizer dos momentos karaoke em que menina decidiu ir até Radiohead, John Lennon, Johnny Cash e Jeff Buckley. É quase como se o tal jogador do FC Porto desatasse a querer ser Maradona, Pelé, Eusébio e Zidane em campo. Nunca na vida.
O nome António
[VENDIDO ASSIM, ALGURES NO BRASIL]
Significa o que está na vanguarda e indica uma pessoa de força interior e fé inabalável nos seus próprios ideais. Isto lhe permite estar sempre à frente, abrindo caminhos que geralmente levam a resultados positivos para todos. Tonho, Toninho, Tonico, Totonho, Totoca, Toni, Tinoco, são diminutivos.
Significa o que está na vanguarda e indica uma pessoa de força interior e fé inabalável nos seus próprios ideais. Isto lhe permite estar sempre à frente, abrindo caminhos que geralmente levam a resultados positivos para todos. Tonho, Toninho, Tonico, Totonho, Totoca, Toni, Tinoco, são diminutivos.
segunda-feira, 27 de Abril de 2009
Hoje vi o Clint Eastwood
Alto. Primeiro é alto. Antes de tudo o resto, detecto-lhe a estatura. Depois ele será, reconheço, envelhecido. Visto daqui, a menos de um metro, é a imagem que melhor define a imagem do homem que soube viver. Vem de mãos vazias ligadas pelos braços a ombros caídos. Tem os olhos naquela posição em que nunca estão realmente abertos, mas que também nunca estão verdadeiramente fechados.
É de forma absolutamente inesperada que este homem se manifesta diante de mim, acabado de desembarcar no aeroporto do Porto. E não é que ele existe mesmo para lá do formato dezasseis por nove? Clint! Clint! Desta vez um pouco mais alto com ele um pouco mais longe. Cliiiint! Não responde. Para confirmar, corro até ao exterior. Não há nenhum Grand Torino estacionado em segunda fila. O ancião entra para a parte de trás de um táxi verde e preto. Confirmo que já não há heróis.
Um indigente tenta vender-me uma rifa para o sorteio de um bilhete para a ilha da fantasia. Digo-lhe que é louco, que isso era uma série dos anos setenta. Ele responde que o Clint Eastwood pediu para me dizer que hoje não tinha estado no Porto.
domingo, 26 de Abril de 2009
Tu
[RETRATO MINIMAL]
Um aviso de última hora ordena o recolher obrigatório das palavras. A esta hora, em todos os lugares, de todas as cidades, em todos os países, as bocas fecharam. Os olhos perguntam porquê, mas os lábios fazem orelhas moucas e só um dedo ousa aceder a um serviço mínimo de comunicação. Aponta na direcção da entrada de um museu e acerta em cheio numa considerável placa branca a letras fundas e negras. Diz: "silêncio".
Silêncio por toda a parte, o mundo em suspenso, à hora da primeira transmissão em directo do teu rosto. Em três, em dois, um...
Tu és tu e muito mais. Guardas a escala inteira do termómetro na bondade do teu peito. Em ti, a frase é vizinha da língua. O texto sai por norma gravado em papel timbrado, mas dias há em que o texto vem do tambor de uma arma carregada. E cada fala é uma bala, o mínimo som é um tiro. Outras vezes o discurso se não vem a direito, chega através de um cutelo escondido, embrulhado em folhas de jornal velho. Mas isso já nem é notícia.
Dizia antes, algures ali cima, que em ti a frase é vizinha da língua. Se a isso não coloco dúvidas, a isto, ainda menos: em ti, a verdade é a bomba. Ela é o príncípio de ti. A primeira pedra do dominó, se a imagem te serve. Ela mexe e tudo o resto se move com ela, por ela. A verdade é o tal termómetro que trazes no peito. É o gelo ou o é fogo. É os limtes da escala, de quem não se cala, quando a frase, que mata ou desperta, é o amor, em forma de seta, no meu coração.
ps: o título, onde hoje és tu, amanhã sou eu
Um aviso de última hora ordena o recolher obrigatório das palavras. A esta hora, em todos os lugares, de todas as cidades, em todos os países, as bocas fecharam. Os olhos perguntam porquê, mas os lábios fazem orelhas moucas e só um dedo ousa aceder a um serviço mínimo de comunicação. Aponta na direcção da entrada de um museu e acerta em cheio numa considerável placa branca a letras fundas e negras. Diz: "silêncio".
Silêncio por toda a parte, o mundo em suspenso, à hora da primeira transmissão em directo do teu rosto. Em três, em dois, um...
Tu és tu e muito mais. Guardas a escala inteira do termómetro na bondade do teu peito. Em ti, a frase é vizinha da língua. O texto sai por norma gravado em papel timbrado, mas dias há em que o texto vem do tambor de uma arma carregada. E cada fala é uma bala, o mínimo som é um tiro. Outras vezes o discurso se não vem a direito, chega através de um cutelo escondido, embrulhado em folhas de jornal velho. Mas isso já nem é notícia.
Dizia antes, algures ali cima, que em ti a frase é vizinha da língua. Se a isso não coloco dúvidas, a isto, ainda menos: em ti, a verdade é a bomba. Ela é o príncípio de ti. A primeira pedra do dominó, se a imagem te serve. Ela mexe e tudo o resto se move com ela, por ela. A verdade é o tal termómetro que trazes no peito. É o gelo ou o é fogo. É os limtes da escala, de quem não se cala, quando a frase, que mata ou desperta, é o amor, em forma de seta, no meu coração.
ps: o título, onde hoje és tu, amanhã sou eu
terça-feira, 21 de Abril de 2009
O petróleo não é tudo JR
[APANHADO DAS IDEIAS - RELATIVO AOS ÚLTIMOS DIAS]
Enquanto me pergunto se é correcto começar um texto pela conjunção subordinativa enquanto, pergunto-me da mesma forma - arrebatado pela mesmíssima intensidade - por onde começar a narrativa dos últimos dias. Subordino-me pois a uma conjunção cadenciada e aleatória de eventos num único sopro. Inspiro. Inspiro. Inspiro. Solto o ar comprido por aí abaixo.
Há um carro estacionado em 1987. Um Ford Sierra verde garrafa de vinho tinto, com os faróis apagados, a apontar no sentido do Piolho, a quarenta ou cinquenta metros de lá. É sábado à noite, estamos a meio de abril, a primavera não é primavera, não é ela, é ele, o inverno, vestido de mulher. Um travesti de estação. Ano 2009. O carro estacionado há 22 anos, canta pelos ouvidos, perdão, por janelas de vidros descidos. Dois monos estão encontados até mais não para trás nos bancos da frente. Um abana os óculos de sol com a cabeça. O outro abana a boca para dizer "this corrosion" em ritmo de canção. Alheio-me desta imagem gótico-mórbida, atravesso para pagar o parque dos Clérigos no Piolho, sempre com a impressão de que os dois brutamontes estão ali à espera de alguém minimamente disposto a ter problemas. Eu não. Só levo no bolso um euro e vinte e por norma não estou a disposto a trazer para casa uma qualquer confusão a custo zero. Ainda para mais uma situação retroactiva, com dois ouvintes parados no tempo, mas exibindo a cassete como se na fita estivesse gravada uma notícia de última hora.Adiante.
Adorava poder comprar um livro na Casa da Cerveja. Como este meu desejo é impossível de satisfazer, contento-me com o lado inverso da coisa. Compro uma, uma não, duas! Compro duas cervejas na Casa do Livro. Eles estão em todos os andares da estante, de lombada virada para a pista, por cima do DJ. Conclusões: é mais fácil dar música do que passar a palavra; é mais fácil vender álcool do que dar vazão ao papel empilhado nos armazéns. Seja feito então o negócio do facilitismo em dois ou três copos de três. Tchim-tchim.
Adiante.
Continuo sem saber se lhe continue a chamar sábado à noite ou se já lhe deva chamar domingo de manhã. Deixo o momento custódio, sem nome, filho de pai incógnito, se é que faço entender. Continuo a chamar-lhe hoje e digo que hoje houve festa da revista Maxmem. O glamour, escasso, que lhe resta, fica pelas páginas, e em poucas. Neste armazém, esta não é uma festa de mulheres habituadas à palavra sugestão. É mais uma cena de filme de homens habituados a ouvir não.
Copos de plástico às centenas partidos no chão. Um gordo disfarçado por baixo de roupas largas de rap finge golpes de hip-hop e só merece um golpe de misericórdia: tirem-lhe o micro da mão. Ele e o artefacto, os dois quando em união, fazem muito mal à saúde das pessoas.
Bebé, vamos embora sem chorar 30 euros. Não há preço para o amor que daqui sai abraçado.
Adiante.
Afinal já segunda-feira. E segunda-feira ao fim da tarde. Vou correr. Quanto tempo até à praia da Aguda? Já demoro só duas músicas dos GNR. O petróleo não é tudo JR. Acorda, muda de figura.
domingo, 19 de Abril de 2009
Já não há pintores?
[WHISKY SEM DINHEIRO EM TROCA A MEIO DA TARDE NO MEIO DA RUA]
Da fama não há-de arranjar fama de se livrar. Quando o relógio disser dezasseis horas, não o dirá por extenso, mas quando os números em causa forem apontados pelos ponteiros, isso quer dizer festa. Festa na rua. Gente outdoor, fotos gigantes nos muros, galeria abertas como estádios em jogos grandes.
Da fama não há-de arranjar fama de se livrar, esta nesga de Porto servido de bandeja, sem ser pedido dinheiro em troca, pelas horas posteriores às quatro da tarde, na rua do antigo psiquiatra e político. Bombarda. Bombarda é, para os que não sabem, "uma espécie de antigo morteiro, que arremessava pedras grandes", conforme vem no dicionário.
[Duas mulheres e um homem com um copo de whisky na mão. Também quero.]
A propósito de Bombarda, e a propósito do significado do apelido quando dito enquanto substantivo, reparo nas pedras pequenas desta pequena galeria do lado direito de quem sobe a rua. Pedras pequenas engalfinhadas em pequenos ferros enferrujados. Olho, re-olho e não lhe encontro grandeza artística. Aqui não preciso de bombarda. Aqui não e em outros tantos sítos como aqui também não preciso. Falo da tristeza destas pedras como podia falar de todos os quadros extremamente mal maquilhados, rua acima, rua abaixo. Tintas tristes, cores aborrecidas, tons doentes. E traços fora do lugar. Traços perdidos como caminhos mal percorridos, desde vielas a auto-estradas, que nunca, mas nunca, iriam a caminho de uma obra bela.
[Mais um grupo de gente com copos de whysky. Também quero!]
É quando o meu próprio cérebro me assalta à mão armada: já não há pintores? E é quando me chamas e me falas da garrafa de whisky, atrás da máquina do café com copos ao lado. Sirvo uma dose sem gelo, saio de encontro a uma esquina de rua onde um anúncio colado na parede escreve "The Famous Miguel Bombarda". Um psiquiatra para mim e um político para os artistas. Whisky para todos. Hoje é dia de festa e o Famous Grouse não tem preço.
Da fama não há-de arranjar fama de se livrar. Quando o relógio disser dezasseis horas, não o dirá por extenso, mas quando os números em causa forem apontados pelos ponteiros, isso quer dizer festa. Festa na rua. Gente outdoor, fotos gigantes nos muros, galeria abertas como estádios em jogos grandes.
Da fama não há-de arranjar fama de se livrar, esta nesga de Porto servido de bandeja, sem ser pedido dinheiro em troca, pelas horas posteriores às quatro da tarde, na rua do antigo psiquiatra e político. Bombarda. Bombarda é, para os que não sabem, "uma espécie de antigo morteiro, que arremessava pedras grandes", conforme vem no dicionário.
[Duas mulheres e um homem com um copo de whisky na mão. Também quero.]
A propósito de Bombarda, e a propósito do significado do apelido quando dito enquanto substantivo, reparo nas pedras pequenas desta pequena galeria do lado direito de quem sobe a rua. Pedras pequenas engalfinhadas em pequenos ferros enferrujados. Olho, re-olho e não lhe encontro grandeza artística. Aqui não preciso de bombarda. Aqui não e em outros tantos sítos como aqui também não preciso. Falo da tristeza destas pedras como podia falar de todos os quadros extremamente mal maquilhados, rua acima, rua abaixo. Tintas tristes, cores aborrecidas, tons doentes. E traços fora do lugar. Traços perdidos como caminhos mal percorridos, desde vielas a auto-estradas, que nunca, mas nunca, iriam a caminho de uma obra bela.
[Mais um grupo de gente com copos de whysky. Também quero!]
É quando o meu próprio cérebro me assalta à mão armada: já não há pintores? E é quando me chamas e me falas da garrafa de whisky, atrás da máquina do café com copos ao lado. Sirvo uma dose sem gelo, saio de encontro a uma esquina de rua onde um anúncio colado na parede escreve "The Famous Miguel Bombarda". Um psiquiatra para mim e um político para os artistas. Whisky para todos. Hoje é dia de festa e o Famous Grouse não tem preço.
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Todos os dias,
Uma história por um euro
domingo, 12 de Abril de 2009
Era uma vez um homem
[CONTINUAÇÃO DE UMA NOITE]
Quando não há vontade de ir embora, fico. Quando não há espaço para respirar, parto. Quando me arrependo, regresso. Quando regresso encontro uma porta fechada.
Nada disso me inquieta quando acordado. Mas dormindo sacudo um sonho repetido e até partilhado pela maioria absoluta dos dias bêbados. Parto a porta, entro no quarto, não acordo. Estou de pé em pé de guerra, estou deitado de cabeça para baixo, com ao pesadelo a ganhar-me a batalha, acordo e olho para mim de pé e não gosto do que vejo.
Acordo e vejo que não passou de um sonho. É um alívio? É. E é um aviso que me avisa como quem meu amigo é, para deixar de ser assim. Adormeço com as costas molhadas, de costas para ti e tu nem sonhas com o que quem sonha pode sonhar
Quando não há vontade de ir embora, fico. Quando não há espaço para respirar, parto. Quando me arrependo, regresso. Quando regresso encontro uma porta fechada.
Nada disso me inquieta quando acordado. Mas dormindo sacudo um sonho repetido e até partilhado pela maioria absoluta dos dias bêbados. Parto a porta, entro no quarto, não acordo. Estou de pé em pé de guerra, estou deitado de cabeça para baixo, com ao pesadelo a ganhar-me a batalha, acordo e olho para mim de pé e não gosto do que vejo.
Acordo e vejo que não passou de um sonho. É um alívio? É. E é um aviso que me avisa como quem meu amigo é, para deixar de ser assim. Adormeço com as costas molhadas, de costas para ti e tu nem sonhas com o que quem sonha pode sonhar
sexta-feira, 10 de Abril de 2009
Era uma vez um homem
[NASCER NO LUGAR ONDE JAZ]
(aqui, em rádioMundo, ou aqui em era uma vez um homem )
Dias há em que a língua teima em ficar presa no copo. O álcool sempre foi o melhor adubo das palavras, cresço em conversas para cima de metade da população residente do Bonaparte. Com a Foz nas costas, misturo água doce com água salgada, eternizo os assuntos e fica impossível que alguém que chegue entretetanto, consiga entrar na tertúlia. Como um barco nocturno em situações de mar revolto.
O espaço que concedo serve apenas para a entrada ao serviço de contra-mestres experimentados. Por esta altura, qual farol saído do nada, Isabel faz por mim a despesa da taberna, aponta a porta de saída, até amanhã a todos, depois falas com eles mais sóbrio. Tem um braço à minha espera e mamas quentes para a minha paz ao anoitecer por baixo dos lençóis. Sei que lá fora há candeeiros de ferro a luz fosca. O rio chega ao fim no lugar onde renasço invariavelmente à hora do amor escondido. O amor fica sereno a escutar o adormecer de uma conversa de vários copos. A língua tem destas coisas. Ora prende, ora liberta… mas só se confia realmente livre quando escutada por esta mulher nua que se agasalha com o meu corpo.
(aqui, em rádioMundo, ou aqui em era uma vez um homem )
Dias há em que a língua teima em ficar presa no copo. O álcool sempre foi o melhor adubo das palavras, cresço em conversas para cima de metade da população residente do Bonaparte. Com a Foz nas costas, misturo água doce com água salgada, eternizo os assuntos e fica impossível que alguém que chegue entretetanto, consiga entrar na tertúlia. Como um barco nocturno em situações de mar revolto.
O espaço que concedo serve apenas para a entrada ao serviço de contra-mestres experimentados. Por esta altura, qual farol saído do nada, Isabel faz por mim a despesa da taberna, aponta a porta de saída, até amanhã a todos, depois falas com eles mais sóbrio. Tem um braço à minha espera e mamas quentes para a minha paz ao anoitecer por baixo dos lençóis. Sei que lá fora há candeeiros de ferro a luz fosca. O rio chega ao fim no lugar onde renasço invariavelmente à hora do amor escondido. O amor fica sereno a escutar o adormecer de uma conversa de vários copos. A língua tem destas coisas. Ora prende, ora liberta… mas só se confia realmente livre quando escutada por esta mulher nua que se agasalha com o meu corpo.
segunda-feira, 6 de Abril de 2009
Sabias no que te estavas a meter quando te meteste nessas calças
[ERA UMA VEZ UMA MULHER]
Pretas. Descidas. Coladas ao desenho em forma de escarpa das ancas e arredores. Pretas. As calças. Apertadas à mão, na parte da frente, com dois movimentos, uma para o nó outro para o laço. Enlaçado pelos olhos, fico preso com o aparente devido respeito à parte de trás desta senhora. [Sabias no que te estavas a meter quanto te meteste nessas calças].
E tem muito que se lhe diga, a arquitectura retroactiva de uma mulher à procura de um par desavindo de saptilhas, quando um pé está mesmo ali à mão e o outro, o esquerdo, se esquivou graças a deus para debaixo da sapateira. Se tem muito que se lhe diga, mais tem ainda que se escreva. Por isso lhe desenho, a si, estas tantas coisas num papel de quem não quer a coisa, mas querendo, querendo mais e mais do que nunca. E fico sem receio dos receios dos textos escritos na primeira pessoa do singular. Estes trechos de strip emocional, onde um homem escrevendo se desnuda e as palavras vão para as linhas, como roupa atirada ao chão. [Sabias no que te estavas a meter quando te meteste nessas calças].
Sei o toque dessas calças de olhos fechados, de trás para a frente, da frente para trás. Esta mão nessa anca é aquecimento central. Mas hoje não. Hoje aprecio o verbo contemplar. Sabendo como é o tom de pele dessa calça preta descida, atrevida na anca e arredores, com uma imensa vontade de te dizer que também, mas não só, mas também, que por aí se pode começar a contar que era uma vez uma mulher que até nem me importava nada, nada, nadinha de consumir no bom sentido, um dia a seguir ao outro, sem prazo de validade, de manhã, à tarde e à noite. Sabias no que te estavas a meter quando te meteste nessas calças. Eu agradeço. Perdido no desassossego feliz de quem está gostar do filme, exibido gratuitamente em versão home cinema.
Pausa. Vamos almoçar aos pais. My I press play on the way back?
Pretas. Descidas. Coladas ao desenho em forma de escarpa das ancas e arredores. Pretas. As calças. Apertadas à mão, na parte da frente, com dois movimentos, uma para o nó outro para o laço. Enlaçado pelos olhos, fico preso com o aparente devido respeito à parte de trás desta senhora. [Sabias no que te estavas a meter quanto te meteste nessas calças].
E tem muito que se lhe diga, a arquitectura retroactiva de uma mulher à procura de um par desavindo de saptilhas, quando um pé está mesmo ali à mão e o outro, o esquerdo, se esquivou graças a deus para debaixo da sapateira. Se tem muito que se lhe diga, mais tem ainda que se escreva. Por isso lhe desenho, a si, estas tantas coisas num papel de quem não quer a coisa, mas querendo, querendo mais e mais do que nunca. E fico sem receio dos receios dos textos escritos na primeira pessoa do singular. Estes trechos de strip emocional, onde um homem escrevendo se desnuda e as palavras vão para as linhas, como roupa atirada ao chão. [Sabias no que te estavas a meter quando te meteste nessas calças].
Sei o toque dessas calças de olhos fechados, de trás para a frente, da frente para trás. Esta mão nessa anca é aquecimento central. Mas hoje não. Hoje aprecio o verbo contemplar. Sabendo como é o tom de pele dessa calça preta descida, atrevida na anca e arredores, com uma imensa vontade de te dizer que também, mas não só, mas também, que por aí se pode começar a contar que era uma vez uma mulher que até nem me importava nada, nada, nadinha de consumir no bom sentido, um dia a seguir ao outro, sem prazo de validade, de manhã, à tarde e à noite. Sabias no que te estavas a meter quando te meteste nessas calças. Eu agradeço. Perdido no desassossego feliz de quem está gostar do filme, exibido gratuitamente em versão home cinema.
Pausa. Vamos almoçar aos pais. My I press play on the way back?
quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Futebol de rua
[O onze da minha vida]
Estamos a chegar ao meio da década de 1980. A janela da casa ao lado, em todas manhãs de sábado, leva à vizinhança inteira a discoteca mais curta e mais alta (falo de volume) do mundo. Todos ouvem o risco da agulha sobre o vinil quando o Jackpot 84 é recolocado no início. Só havia aquele disco. O resto da música chegava àquela rua pela rádio - de onde era gravada para cassetes brancas, para as cassetes brancas cuja fita ainda não tinha enrolado no leitor conhecido entre nós por gravador - ou pela televisão - quase sempre aos domingos e ao vivo em playback.
O início dessas férias grandes teve dois acontecimentos inesquecíveis em dois dias distintos de festas populares assemelhadas. No santo António, morreu o António Variações, um homem a quem os outros homens achincalhavam a profissão: cabeleireiro. A canalha daquela rua demorou alguns anos a perceber tão comentada morte. Ouvia-se às escondidas que tinha morrido porque não gostava de mulheres. Eu e os outros dez do onze da minha vida, mal refeitos da quarta classe e estacionados num fim de primavera enquanto não chegava o mundo novo do próximo ano lectivo, eu e os outros dez do onze da minha vida, nenhum de nós se tinha sequer aproximado dessa coisa tão estranha do dia-a-dia dos mais velhos: o gostar de mulheres. O nosso feminino era outro, de pele sem rugas, de forma redonda, a senhora do primeiro abraço e do primeiro beijo, a primeira companhia na cama, chamada... bola.
A bola leva-nos ao outro acontecimento num outro dia de festa popular. Foi o dia de todas as lágrimas, mesmo mesmo à tardinha. Portugal estava a ganhar, mas acabou por perder mesmo mesmo no fim com a França. O Chalana não merecia aquilo. O Jordão e o Bento também não. E o onze da minha vida ainda menos. Mais tarde saberíamos que a sensação daquela véspera de S.João era a cara do dia em que perdemos a primeira namorada. Não havia fome para a sardinha, nem força de braços para os martelos, quanto mais cabeça para as marteladas. O arraial montado, a seguir à curva, no largo da Tapada, estava em depressão com a azar das camisolas vermelhas num relvado francês.
O golpe teve um único efeito. A bola ficou, como se possível fosse, ainda mais próxima. A nossa luta contra a derrota lá ao longe num país estrangeiro, fez vítimas à porta de casa. Do campo do S.Félix, veio a rede de uma baliza sem encomenda prévia. Do pinhal vieram seis postes e traves, cortados a serrote emprestado sem o dono saber. Onde hoje há uma urbanização, havia uma quinta abandonada. Cortámos a rede em duas, para duas balizas de tamanho andebol. Cavámos a terra, enterrámos os postes, pregámos as traves, pregámos as redes, fizemos balizas. Duas. Cavámos mais terra, muita terra, deixámos um buraco e ao lado um monte. Sujámos as mãos, marcámos o campo, sujámos a roupa, marcámos a erva com linhas de terra castanha. Vencemos um sonho, fomos uma equipa. Eramos onze.
O Serginho, não sei porquê, foi um dos poucos a escapar às alcunhas. Era, e é, canhoto. Quando dizia ó moço, o mais certo era o moço estar a cair para o lado com um soco na cara. O Feu também não tinha alcunha, mas ele não tinha porque era o mais velho (pensávamos nós) e o mais alto e ai de quem... Feu, diga-se para registo, era diminutivo de Alfeu. Estes dois sem alcunha viviam quase quase colados a mim. Perto do Feu, morava o Zé da Kika, sempre moreno o ano todo, ninguém sabia que já tinha quase 18 anos, era baixinho baixnho, e é, chamado da forma que vos disse à custa do nome da mãe.
Havia os gémeos Formiga, alcunha herdada do avô à força da rua. Uma era branquinho, fininho, de cabelos lisos compridos. O outro mais entroncado, mais escuro, de cabelo curto e grosso. Tinham 11 ou 12 anos e eram marceneiros. As nossas canelas conheciam bem os butos deles, de sola duríssima, sim digo butos porque dizíamos assim, apesar da palavra não aparecer no dicionário.
Havia mais três pares de irmãos. O Sachola, apenas porque sim, e o Caniço, com um nome destes por causa de uma consulta devido a um problema na pila, como nos diziam, e por causa de haver uma novela onde um tal de Caniço morre quando lhe cortam a masculinidade.
Na casa ao lado, o Gordeirão, acredito que estejam a ver porquê, e irmão dele, o Relhoto, um nome de merda, confesso. Esse tinha o cabelo na nuca em forma de "v" invertido e ficou baptizado dessa forma.
E vão nove. Faltam dois. O Rui Pena ou simplesmente Peninha, meu irmão, viciado nos entretanto extintos gelados Pena Doce. Onde ele estava, estava um gelado desses. Certo, seguro, garantido.
Sobro eu para o que resta da história. Toni primeiro e Pedrinha mais tarde, à custa da Vereda Tropical, uma novela brasileira com muito futebol. Mas não tanto como o futebol do onze da minha vida. Uma equipa de trazer por casa. Jogava de camisola branca com números azuis. O meu foi recortado de um pano velho e cosido sobre um desenho indêntico feito a lápis nas costas da t-shirt para ficar no sítio certo. Era um 7 diferente deste. Tinha um traço perpendicular ao meio. Era um 7 com bigode. Já não se fazem números assim.
Estamos a chegar ao meio da década de 1980. A janela da casa ao lado, em todas manhãs de sábado, leva à vizinhança inteira a discoteca mais curta e mais alta (falo de volume) do mundo. Todos ouvem o risco da agulha sobre o vinil quando o Jackpot 84 é recolocado no início. Só havia aquele disco. O resto da música chegava àquela rua pela rádio - de onde era gravada para cassetes brancas, para as cassetes brancas cuja fita ainda não tinha enrolado no leitor conhecido entre nós por gravador - ou pela televisão - quase sempre aos domingos e ao vivo em playback.
O início dessas férias grandes teve dois acontecimentos inesquecíveis em dois dias distintos de festas populares assemelhadas. No santo António, morreu o António Variações, um homem a quem os outros homens achincalhavam a profissão: cabeleireiro. A canalha daquela rua demorou alguns anos a perceber tão comentada morte. Ouvia-se às escondidas que tinha morrido porque não gostava de mulheres. Eu e os outros dez do onze da minha vida, mal refeitos da quarta classe e estacionados num fim de primavera enquanto não chegava o mundo novo do próximo ano lectivo, eu e os outros dez do onze da minha vida, nenhum de nós se tinha sequer aproximado dessa coisa tão estranha do dia-a-dia dos mais velhos: o gostar de mulheres. O nosso feminino era outro, de pele sem rugas, de forma redonda, a senhora do primeiro abraço e do primeiro beijo, a primeira companhia na cama, chamada... bola.
A bola leva-nos ao outro acontecimento num outro dia de festa popular. Foi o dia de todas as lágrimas, mesmo mesmo à tardinha. Portugal estava a ganhar, mas acabou por perder mesmo mesmo no fim com a França. O Chalana não merecia aquilo. O Jordão e o Bento também não. E o onze da minha vida ainda menos. Mais tarde saberíamos que a sensação daquela véspera de S.João era a cara do dia em que perdemos a primeira namorada. Não havia fome para a sardinha, nem força de braços para os martelos, quanto mais cabeça para as marteladas. O arraial montado, a seguir à curva, no largo da Tapada, estava em depressão com a azar das camisolas vermelhas num relvado francês.
O golpe teve um único efeito. A bola ficou, como se possível fosse, ainda mais próxima. A nossa luta contra a derrota lá ao longe num país estrangeiro, fez vítimas à porta de casa. Do campo do S.Félix, veio a rede de uma baliza sem encomenda prévia. Do pinhal vieram seis postes e traves, cortados a serrote emprestado sem o dono saber. Onde hoje há uma urbanização, havia uma quinta abandonada. Cortámos a rede em duas, para duas balizas de tamanho andebol. Cavámos a terra, enterrámos os postes, pregámos as traves, pregámos as redes, fizemos balizas. Duas. Cavámos mais terra, muita terra, deixámos um buraco e ao lado um monte. Sujámos as mãos, marcámos o campo, sujámos a roupa, marcámos a erva com linhas de terra castanha. Vencemos um sonho, fomos uma equipa. Eramos onze.
O Serginho, não sei porquê, foi um dos poucos a escapar às alcunhas. Era, e é, canhoto. Quando dizia ó moço, o mais certo era o moço estar a cair para o lado com um soco na cara. O Feu também não tinha alcunha, mas ele não tinha porque era o mais velho (pensávamos nós) e o mais alto e ai de quem... Feu, diga-se para registo, era diminutivo de Alfeu. Estes dois sem alcunha viviam quase quase colados a mim. Perto do Feu, morava o Zé da Kika, sempre moreno o ano todo, ninguém sabia que já tinha quase 18 anos, era baixinho baixnho, e é, chamado da forma que vos disse à custa do nome da mãe.
Havia os gémeos Formiga, alcunha herdada do avô à força da rua. Uma era branquinho, fininho, de cabelos lisos compridos. O outro mais entroncado, mais escuro, de cabelo curto e grosso. Tinham 11 ou 12 anos e eram marceneiros. As nossas canelas conheciam bem os butos deles, de sola duríssima, sim digo butos porque dizíamos assim, apesar da palavra não aparecer no dicionário.
Havia mais três pares de irmãos. O Sachola, apenas porque sim, e o Caniço, com um nome destes por causa de uma consulta devido a um problema na pila, como nos diziam, e por causa de haver uma novela onde um tal de Caniço morre quando lhe cortam a masculinidade.
Na casa ao lado, o Gordeirão, acredito que estejam a ver porquê, e irmão dele, o Relhoto, um nome de merda, confesso. Esse tinha o cabelo na nuca em forma de "v" invertido e ficou baptizado dessa forma.
E vão nove. Faltam dois. O Rui Pena ou simplesmente Peninha, meu irmão, viciado nos entretanto extintos gelados Pena Doce. Onde ele estava, estava um gelado desses. Certo, seguro, garantido.
Sobro eu para o que resta da história. Toni primeiro e Pedrinha mais tarde, à custa da Vereda Tropical, uma novela brasileira com muito futebol. Mas não tanto como o futebol do onze da minha vida. Uma equipa de trazer por casa. Jogava de camisola branca com números azuis. O meu foi recortado de um pano velho e cosido sobre um desenho indêntico feito a lápis nas costas da t-shirt para ficar no sítio certo. Era um 7 diferente deste. Tinha um traço perpendicular ao meio. Era um 7 com bigode. Já não se fazem números assim.
segunda-feira, 30 de Março de 2009
Revista com mulheres provavelmente nuas
[APERTEM OS CINTOS E ENDIREITEM AS COSTAS DAS CADEIRAS]
Dia 1 -
Isto começa num sítio onde não devia ter começado. O actor principal deste episódio está a caminho da cafetaria de um hospital em Vila Nova de Gaia, a meio de um tarde de domingo, quando se afasta por um instante do grupo onde segue. Faz um desvio curto para entrar no quiosque, atraído pelo menú gigante dos gelados que está à porta. Vai com ideias de um perna de pau dos pequenos. Já vai a procurar setenta cêntimos na carteira, em andamento, quando repara que não está ninguém no interior do local de venda. Ao espreitar os títulos dos jornais desportivos, ele é avisado de que Portugal está mais longe de África. E ali por cima do balcão, mora ao lados dos relatos da bola, a primeira edição da Palyboy portuguesa. A escolha da foto de capa parece-lhe má [old on your thought] e é neste momento que entra a dona do estabelecimento, a mesma senhora que lhe vende o gelado e lhe dá trinta cêntimos de troco. Ele saiu, retirou o papel do gelado, colocou-o no lixo e entrou na cafetaria.
É verdade que por breves instantes pensou em comprar a revista, acabando por não o fazer por causa do grupo onde seguia: o sogro estava lá e a filha única do sogro também. Não ia cair bem sair de uma visita hospitalar levando debaixo do braço uma revista com uma mulher de cabelo ao peito.
Dia 2 -
Quando a edição número um volta a ser tema de conversa, ele está no emprego. É segunda-feira, por volta do meio dia. Pega na carteira, nos cigarros, despede-se com um até já de quem pretende sair para o almoço. A namorada fala-lhe pelo telefone.Pergunta se ele quer que ela compre a revista. Responde que não. Que já está a sair para a comprar. Chegado ao café ao lado do emprego, os olhos viajam pelos escaparates com sinal aparente de insucesso. Pede uma empada, dois croquetes e a Playboy. Respondem que não há. Ele sabe que não estão a falar dos salgados.
Por esta altura, quando chega ao ponto de não conseguir comprar a Playboy, em dois dias diferentes, em dois lugares diferentes, por duas razões diferentes, passa-lhe pela cabeça alugar um autocarro e organizar uma excursão, sem destino programado, apenas e só para adequirir a tal edição de coleccionador. Passado o desvario, regressa ao trabalho.
Uma horas, duas horas, três. O dia está feito. A caminho de casa há uma boa meia dúzia de estações de serviço. Compra lá, pensa. Mas não compra! Não compra porque não há. Fica a perceber isso mesmo numa loja da BP, ao lado de uma mulher polícia loira que folheia a Activa. Uns quantos quilómetros mais adiante, já conduz sem grande esperança. Num posto de combustível de marca nacional, a sorte continua a ser nula. Foca tudo no minuto do telefonema da namorada ao almoço. Ela estava no supermercado, com as tais páginas na mão, que acabou por não trazer logo na hora.
O actor deste filme volta à condição de GPS humano e avança em direcção ao Modelo. Na primeira rotunda, é obrigado a travar a fundo. Acaba por ficar atrás de um daqueles carros lentos, que não obrigam a carta de condução. Tem pintura metalizada, cor de comida para grilo. A marca é Abaca. Sorri com a coincidência de um nome daqueles, quando a caminho de uma revista de mulheres provavelmente nuas.
Mais três euros e noventa e cinco cêntimos e está feito. Feito. Tanta coisa para quase nada. Vem lá uma menina que podia ter passado por ele há instantes na Galp, a julgar pela forma como mandou encher as mamas. A qualidade gráfica está obrigada a melhorar, as fotos ficam um pouquinho a norte do banal. A contra-capa exibe um anúncio com estas letras: o poder do cabedal.
Resumindo e quase concluindo: é só por ser a primeira que esta edição fica nos anais.
Posto isto, é agora possível canalizar toda a atenção para o verdadeiro motivo que originou esta autêntica caça ao tesouro: a vontade de ler a entrevista do Costinha.
Dia 1 -
Isto começa num sítio onde não devia ter começado. O actor principal deste episódio está a caminho da cafetaria de um hospital em Vila Nova de Gaia, a meio de um tarde de domingo, quando se afasta por um instante do grupo onde segue. Faz um desvio curto para entrar no quiosque, atraído pelo menú gigante dos gelados que está à porta. Vai com ideias de um perna de pau dos pequenos. Já vai a procurar setenta cêntimos na carteira, em andamento, quando repara que não está ninguém no interior do local de venda. Ao espreitar os títulos dos jornais desportivos, ele é avisado de que Portugal está mais longe de África. E ali por cima do balcão, mora ao lados dos relatos da bola, a primeira edição da Palyboy portuguesa. A escolha da foto de capa parece-lhe má [old on your thought] e é neste momento que entra a dona do estabelecimento, a mesma senhora que lhe vende o gelado e lhe dá trinta cêntimos de troco. Ele saiu, retirou o papel do gelado, colocou-o no lixo e entrou na cafetaria.
É verdade que por breves instantes pensou em comprar a revista, acabando por não o fazer por causa do grupo onde seguia: o sogro estava lá e a filha única do sogro também. Não ia cair bem sair de uma visita hospitalar levando debaixo do braço uma revista com uma mulher de cabelo ao peito.
Dia 2 -
Quando a edição número um volta a ser tema de conversa, ele está no emprego. É segunda-feira, por volta do meio dia. Pega na carteira, nos cigarros, despede-se com um até já de quem pretende sair para o almoço. A namorada fala-lhe pelo telefone.Pergunta se ele quer que ela compre a revista. Responde que não. Que já está a sair para a comprar. Chegado ao café ao lado do emprego, os olhos viajam pelos escaparates com sinal aparente de insucesso. Pede uma empada, dois croquetes e a Playboy. Respondem que não há. Ele sabe que não estão a falar dos salgados.
Por esta altura, quando chega ao ponto de não conseguir comprar a Playboy, em dois dias diferentes, em dois lugares diferentes, por duas razões diferentes, passa-lhe pela cabeça alugar um autocarro e organizar uma excursão, sem destino programado, apenas e só para adequirir a tal edição de coleccionador. Passado o desvario, regressa ao trabalho.
Uma horas, duas horas, três. O dia está feito. A caminho de casa há uma boa meia dúzia de estações de serviço. Compra lá, pensa. Mas não compra! Não compra porque não há. Fica a perceber isso mesmo numa loja da BP, ao lado de uma mulher polícia loira que folheia a Activa. Uns quantos quilómetros mais adiante, já conduz sem grande esperança. Num posto de combustível de marca nacional, a sorte continua a ser nula. Foca tudo no minuto do telefonema da namorada ao almoço. Ela estava no supermercado, com as tais páginas na mão, que acabou por não trazer logo na hora.
O actor deste filme volta à condição de GPS humano e avança em direcção ao Modelo. Na primeira rotunda, é obrigado a travar a fundo. Acaba por ficar atrás de um daqueles carros lentos, que não obrigam a carta de condução. Tem pintura metalizada, cor de comida para grilo. A marca é Abaca. Sorri com a coincidência de um nome daqueles, quando a caminho de uma revista de mulheres provavelmente nuas.
Mais três euros e noventa e cinco cêntimos e está feito. Feito. Tanta coisa para quase nada. Vem lá uma menina que podia ter passado por ele há instantes na Galp, a julgar pela forma como mandou encher as mamas. A qualidade gráfica está obrigada a melhorar, as fotos ficam um pouquinho a norte do banal. A contra-capa exibe um anúncio com estas letras: o poder do cabedal.
Resumindo e quase concluindo: é só por ser a primeira que esta edição fica nos anais.
Posto isto, é agora possível canalizar toda a atenção para o verdadeiro motivo que originou esta autêntica caça ao tesouro: a vontade de ler a entrevista do Costinha.
sábado, 28 de Março de 2009
Uma crónica brutal
[É MELHOR ESCREVER SENTADO]
Naquele dia houve um detalhe doméstico assim a modos que a fugir para o torto. Sentados finalmente à mesa para o jantar na sala, traziam no corpo uma fome que diziam ser de semanas. Sem convite para uma refeição preparada a pensar única e exclusivamente no casal, apareceu vindo do nada um odor rude, mal educado mesmo. E num ápice eram três à mesa. Ele, ela e o cheiro que tentavam ainda descobrir de onde vinha, deixando a cabeça guiar-se pelo nariz, à procura do monstro invisível que tinha acabado de entrar lá em casa, quando já passava das dez horas da noite. [Na curtíssima pausa deste ponto final, o computador assume a função de gira-discos e traz primeiro uma hamónica, depois um piano e logo logo a seguir a voz de Bruce Springsteen. Thunder Road. É bom. Muito bom, mas continuemos na viela deste texto...]
Ela põe fim à procura do tal monstro com uma garfada decidida sobre um punhado de batatas fritas. O gesto assemelhou-se a um homícidio a sangue frio, é verdade, mas ali não houve crime algum; as batatas tinham sido mortas há muito, fritas numa máquina eléctrica a funcionar na perfeição. O problema estava no óleo, moço fora de prazo, com conversa estragada. Foi ele o criador do monstro invisível. E então, se a fome era muito, a fome foi ainda mais. O casal esforçou a imaginação esfomeada ao limite, numa tentativa derradeira, como numa aventura de vida ou morte, para salvar o jantar. Ele ainda se levantou num espasmo e foi, acometido por uma ideia tresloucada, numa corrida a lembrar quem foge de um animal selvagem, ajoelhar-se sobre a banheira. Naquele dia não havia champô para cabelos oleosos. As batatas estavam condenadas à viagem penosa para a última morada num saco do lixo.
Depois de tudo isto, quando voltaram apenas a ser eles os dois à mesa da sala, a fome estava demasiado cansada para ser fome. Eles salvaram o jantar com sorrisos, percebendo que quando não há nada a fazer, não há nada a fazer...
Naquele dia houve um detalhe doméstico assim a modos que a fugir para o torto. Sentados finalmente à mesa para o jantar na sala, traziam no corpo uma fome que diziam ser de semanas. Sem convite para uma refeição preparada a pensar única e exclusivamente no casal, apareceu vindo do nada um odor rude, mal educado mesmo. E num ápice eram três à mesa. Ele, ela e o cheiro que tentavam ainda descobrir de onde vinha, deixando a cabeça guiar-se pelo nariz, à procura do monstro invisível que tinha acabado de entrar lá em casa, quando já passava das dez horas da noite. [Na curtíssima pausa deste ponto final, o computador assume a função de gira-discos e traz primeiro uma hamónica, depois um piano e logo logo a seguir a voz de Bruce Springsteen. Thunder Road. É bom. Muito bom, mas continuemos na viela deste texto...]
Ela põe fim à procura do tal monstro com uma garfada decidida sobre um punhado de batatas fritas. O gesto assemelhou-se a um homícidio a sangue frio, é verdade, mas ali não houve crime algum; as batatas tinham sido mortas há muito, fritas numa máquina eléctrica a funcionar na perfeição. O problema estava no óleo, moço fora de prazo, com conversa estragada. Foi ele o criador do monstro invisível. E então, se a fome era muito, a fome foi ainda mais. O casal esforçou a imaginação esfomeada ao limite, numa tentativa derradeira, como numa aventura de vida ou morte, para salvar o jantar. Ele ainda se levantou num espasmo e foi, acometido por uma ideia tresloucada, numa corrida a lembrar quem foge de um animal selvagem, ajoelhar-se sobre a banheira. Naquele dia não havia champô para cabelos oleosos. As batatas estavam condenadas à viagem penosa para a última morada num saco do lixo.
Depois de tudo isto, quando voltaram apenas a ser eles os dois à mesa da sala, a fome estava demasiado cansada para ser fome. Eles salvaram o jantar com sorrisos, percebendo que quando não há nada a fazer, não há nada a fazer...
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Todos os dias,
Uma história por um euro
quarta-feira, 25 de Março de 2009
A ver se é desta...
[DE UM LONGO SILÊNCIO]
As mãos caminham uma em direcção à outra por instinto. Quando se encontram ao fim de tanto tempo, os dedos gesticulam dizeres de saudade, antes de um abraço colectivo entre os da mesma espécie. Os cotovelos, vizinhos da curva ali ao fundo e donos de uma vida dorida, assistem a tudo isto com a indiferença de quem já só acredita quando vê.
As partes todas daquele corpo anseiam há muitos dias pelo dia em que ele volte a falar com as palavras. A meio desta reunião de condomínio anatómica, os polegares seguram o queixo. Os olhos perdem a vergonha diante do monitor. O pé direito bate no chão a compasso exacto. O esquerdo continua mudo. Agora mexem os dois como no rufo do tambor. O som absolutamente imprevisto acorda o sangue. Ele renasce a partir de todos os espaços de todas as veias. Descreve-se semelhante a uma locomotiva antiga, esquecida numa velha estação encerrada vai para décadas. Vai sobre trilhos de ferrugem, por uma via de um só sentido único, por um caminho que dizem não o levar a lado nenhum. E mais: dizem que mais lá para diante o caminho aperta, há túneis sem luz, pedras de toneladas caídas sobre a linha. Árvores mortas e tombadas.
A esta hora, acordado da mortandade, já nada disso importa. Não haverá caminho mais sinuoso do que o estar quieto, observando.
As mãos caminham uma em direcção à outra por instinto. Quando se encontram ao fim de tanto tempo, os dedos gesticulam dizeres de saudade, antes de um abraço colectivo entre os da mesma espécie. Os cotovelos, vizinhos da curva ali ao fundo e donos de uma vida dorida, assistem a tudo isto com a indiferença de quem já só acredita quando vê.
As partes todas daquele corpo anseiam há muitos dias pelo dia em que ele volte a falar com as palavras. A meio desta reunião de condomínio anatómica, os polegares seguram o queixo. Os olhos perdem a vergonha diante do monitor. O pé direito bate no chão a compasso exacto. O esquerdo continua mudo. Agora mexem os dois como no rufo do tambor. O som absolutamente imprevisto acorda o sangue. Ele renasce a partir de todos os espaços de todas as veias. Descreve-se semelhante a uma locomotiva antiga, esquecida numa velha estação encerrada vai para décadas. Vai sobre trilhos de ferrugem, por uma via de um só sentido único, por um caminho que dizem não o levar a lado nenhum. E mais: dizem que mais lá para diante o caminho aperta, há túneis sem luz, pedras de toneladas caídas sobre a linha. Árvores mortas e tombadas.
A esta hora, acordado da mortandade, já nada disso importa. Não haverá caminho mais sinuoso do que o estar quieto, observando.
segunda-feira, 9 de Março de 2009
Prova de vida
[9 DE MARÇO DE 1974]

Mandam dizer que foi depois da uma da tarde. A mãe trazia na barriga o sonho de uma vida. O pai gastava as solas no soalho de uma sala de espera vazia. Mandam dizer que o frio lhe encolhia os ombros. Que a ansiedade lhe tolhia o rosto e as pernas não lhe davam descanso. Mandou comprar cigarros, dois maços. Mandou trazer esperança e boa sorte. Sorriu.
A mãe era uma mulher bonita. Uma flôr de desenho humilde. Tinha a palavra amor escrita nas linhas do rosto. Numa tinta invisível, perceptível apenas no olhar dos mais sensíveis. O pai soube ler aqueles traços e julgou ter encontrado a vida eterna. Era um homem elegante. Um senhor feito à medida da ilusão das raparigas. Como se viesse de um catálogo de príncipes perfeitos.
Mandam dizer que se amaram com respeito e nobreza. Que foi uma história sem mácula. Nunca ousaram pecar quanto aos costumes. Também não terá sido um romance de época, nem terão seguido à letra os livros sobre essa arte de completar alguém. Mas sabiam de cor os versos enrugados do sacrifício e neles encontraram os caminhos todos em direcção a um lugar feliz.
Mandam dizer que foi depois da uma da tarde. Que a mãe trazia na barriga o sonho de uma vida. O sonho tinha vontade própria, respondia com teimosia ao nascimento. O sonho era amor em estado puro, era egoísmo. O sonho era o céu e o inferno. O sonho era eu.
Mandam dizer que foi depois da uma da tarde. A mãe trazia na barriga o sonho de uma vida. O pai gastava as solas no soalho de uma sala de espera vazia. Mandam dizer que o frio lhe encolhia os ombros. Que a ansiedade lhe tolhia o rosto e as pernas não lhe davam descanso. Mandou comprar cigarros, dois maços. Mandou trazer esperança e boa sorte. Sorriu.
A mãe era uma mulher bonita. Uma flôr de desenho humilde. Tinha a palavra amor escrita nas linhas do rosto. Numa tinta invisível, perceptível apenas no olhar dos mais sensíveis. O pai soube ler aqueles traços e julgou ter encontrado a vida eterna. Era um homem elegante. Um senhor feito à medida da ilusão das raparigas. Como se viesse de um catálogo de príncipes perfeitos.
Mandam dizer que se amaram com respeito e nobreza. Que foi uma história sem mácula. Nunca ousaram pecar quanto aos costumes. Também não terá sido um romance de época, nem terão seguido à letra os livros sobre essa arte de completar alguém. Mas sabiam de cor os versos enrugados do sacrifício e neles encontraram os caminhos todos em direcção a um lugar feliz.
Mandam dizer que foi depois da uma da tarde. Que a mãe trazia na barriga o sonho de uma vida. O sonho tinha vontade própria, respondia com teimosia ao nascimento. O sonho era amor em estado puro, era egoísmo. O sonho era o céu e o inferno. O sonho era eu.
quinta-feira, 5 de Março de 2009
Uma confissão rápida
Tenho uma admiração profunda por este homem. Guardo na minha secretária um artigo de opinão dele no Público com mais de um ano.
quarta-feira, 4 de Março de 2009
As penas de Agostinho
[DE TRANSATLÂNTICO ATÉ ÀS LINHAS DESTA HISTÓRIA]
Agostinho está preso faz agora cinco anos. Foi detido a meio da noite numa floresta tropical da qual já nem o nome recorda. Agostinho foi assarapantado a meio da noite, apontaram-lhe uma lanterna aos olhos, ele sentiu o acordar como se estivesse a vir em direcção a ele um camião desgovernado com os máximos ligados. Agostinho foi apanhado de madrugada quando descansava numa espécie de ninho, improvisado com o que havia, só para passar a noite, escondido do resto do mundo. Os caçadores furtivos de Agostinho, vamos chamá-los assim, atiraram para cima dele uma rede pesada, quase em fios de aço, usada por norma na pesca do tubarão. Para além da dor provocada pela agrilhoado daquela malha de captura, percebeu logo que estava a ser preso por alguém que não era dali. Aquele rede era de homens mais aproximados às águas do mar. Ali, naquele Brasil de fim de mundo, o mar ficava a uma distância de outro mundo, pelo que os homens que o prenderam não podiam ser dali. Não eram com certeza, sabia-o o instinto de Agostinho.
Agostinho acha-se detido sem culpa formada. Jura por tudo e por todos que nem a um juiz foi presente. Diz-se metido à força num saco grosso de cheiro forte, metido à força na mala de um carro velho, metido à força numa jaula de ferros frios, atirado para a casa das máquinas de um iate, viajado também à força, como é óbvio, durante duas semanas num rio de silêncio, só desfeito aqui e ali pelo barulho dos mais diversos agentes da natureza: os animais pelas margens abaixo.
Agostinho foi, é ele quem o diz, traficado na escuridão da madrugada, do sub-solo do iate para o porão de um cargueiro. Esteve um mês sem ver a luz do dia. Fechado no aço do barco gigante, fechado numa jaula de ferros gelados, coberto por um oleado que devia ser preto, não podia jurar. Agostinho ouvia os passos de um homem duas vezes ao dia. Sabia que seria de manhã numa e de noite noutra visita diária daquele sujeito que bem podia ser mudo. Agostinho a princípio nem tocava nos restos da comida da tripulação, para ele atirada, a princípio nem tocava, depois ia tocando e ao fim de um tempo já desesperava pela chegada do tipo encarregue de não o deixar morrer à fome, duas vezes a cada vinte e quatro horas.
Agostinho jura-se inocente. Agostinho diz que nada fez, que nada sabe, que nada consegue imaginar justificar aquela detenção à moda de Cuba ou do Chile de antigamente. Agostinho, brasileiro de vestir a canarinha, esteve para enlouquecer na altura, não sabendo o quê nem o porquê de tudo aquilo. Soube Agostinho ao fim de um mês que estava para atracar no porto de Leixões, um porto que ficava às portas do Porto, soube-o pelo rapaz a quem já chamava do take-way e que afinal, ao fim trinta dias de jornada atlântica, lá mostrou que afinal não era mudo.
Agostinho só saiu da jaula de onde vinha para ser colocado numa cela com vistas para três paredes uma porta sempre fechada. Foi condenado a prisão perpétua nunca lhe disseram porquê. Foi lhe negado um simples telefonema. Foi-lhe negado o contacto com o passado e estavam a acabar de lhe arruinar o futuro: prisão perpétua!! Agostinho chorou lágrimas que juro não serem de crocodilo quando se apercebeu que nunca mais iria ver, falar ou tocar aquela deusa a quem o mundo decidiu chamar de Robertinha. Ela não era fêmea comum, ave rara é o que era, a predilecta deste papagaio educado, de penas avermelhadas, que me dá as boas tardes quando chego ao ginásio. Agostinho de seu nome. Um dos meus últimos amigos. Diz-me olá todos os dias.
Agostinho está preso faz agora cinco anos. Foi detido a meio da noite numa floresta tropical da qual já nem o nome recorda. Agostinho foi assarapantado a meio da noite, apontaram-lhe uma lanterna aos olhos, ele sentiu o acordar como se estivesse a vir em direcção a ele um camião desgovernado com os máximos ligados. Agostinho foi apanhado de madrugada quando descansava numa espécie de ninho, improvisado com o que havia, só para passar a noite, escondido do resto do mundo. Os caçadores furtivos de Agostinho, vamos chamá-los assim, atiraram para cima dele uma rede pesada, quase em fios de aço, usada por norma na pesca do tubarão. Para além da dor provocada pela agrilhoado daquela malha de captura, percebeu logo que estava a ser preso por alguém que não era dali. Aquele rede era de homens mais aproximados às águas do mar. Ali, naquele Brasil de fim de mundo, o mar ficava a uma distância de outro mundo, pelo que os homens que o prenderam não podiam ser dali. Não eram com certeza, sabia-o o instinto de Agostinho.
Agostinho acha-se detido sem culpa formada. Jura por tudo e por todos que nem a um juiz foi presente. Diz-se metido à força num saco grosso de cheiro forte, metido à força na mala de um carro velho, metido à força numa jaula de ferros frios, atirado para a casa das máquinas de um iate, viajado também à força, como é óbvio, durante duas semanas num rio de silêncio, só desfeito aqui e ali pelo barulho dos mais diversos agentes da natureza: os animais pelas margens abaixo.
Agostinho foi, é ele quem o diz, traficado na escuridão da madrugada, do sub-solo do iate para o porão de um cargueiro. Esteve um mês sem ver a luz do dia. Fechado no aço do barco gigante, fechado numa jaula de ferros gelados, coberto por um oleado que devia ser preto, não podia jurar. Agostinho ouvia os passos de um homem duas vezes ao dia. Sabia que seria de manhã numa e de noite noutra visita diária daquele sujeito que bem podia ser mudo. Agostinho a princípio nem tocava nos restos da comida da tripulação, para ele atirada, a princípio nem tocava, depois ia tocando e ao fim de um tempo já desesperava pela chegada do tipo encarregue de não o deixar morrer à fome, duas vezes a cada vinte e quatro horas.
Agostinho jura-se inocente. Agostinho diz que nada fez, que nada sabe, que nada consegue imaginar justificar aquela detenção à moda de Cuba ou do Chile de antigamente. Agostinho, brasileiro de vestir a canarinha, esteve para enlouquecer na altura, não sabendo o quê nem o porquê de tudo aquilo. Soube Agostinho ao fim de um mês que estava para atracar no porto de Leixões, um porto que ficava às portas do Porto, soube-o pelo rapaz a quem já chamava do take-way e que afinal, ao fim trinta dias de jornada atlântica, lá mostrou que afinal não era mudo.
Agostinho só saiu da jaula de onde vinha para ser colocado numa cela com vistas para três paredes uma porta sempre fechada. Foi condenado a prisão perpétua nunca lhe disseram porquê. Foi lhe negado um simples telefonema. Foi-lhe negado o contacto com o passado e estavam a acabar de lhe arruinar o futuro: prisão perpétua!! Agostinho chorou lágrimas que juro não serem de crocodilo quando se apercebeu que nunca mais iria ver, falar ou tocar aquela deusa a quem o mundo decidiu chamar de Robertinha. Ela não era fêmea comum, ave rara é o que era, a predilecta deste papagaio educado, de penas avermelhadas, que me dá as boas tardes quando chego ao ginásio. Agostinho de seu nome. Um dos meus últimos amigos. Diz-me olá todos os dias.
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quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009
Quinta
[OS DIAS EM POUCAS PALAVRAS]
Quinta-feira à noite é o momento de um encontro imeadiato com a palavra quase.
Quinta-feira à noite é o momento de um encontro imeadiato com a palavra quase.
quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
Andar na linha de um texto
[PONTUAR AS REGRAS]
Estava feliz. Capaz de andar na linha de um texto. Disposto a parar em todos os pontos; a fazer parágrafos quando decidisse mudar de ideias. Comprometido a olhar para um lado e para o outro e atravessar depressa em cada vírgula. Estava feliz. Sem ponta de receio das curvas de uma qualquer interrogação, mas sem conseguir esconder a ansiedade sempre que se via a chegar perto de dois pontos.
Estendia um travessão para dar a palavra a outrém. Por vezes exclamava-se com os diálogos, noutras mostrava-se reticente. Se a conversa dava para o torto, impunha a sua razão. E em resposta a um alto aí, dizia alto aí ponto e vírgula.
Não sendo pessoa de grandes conflitos, para evitar chatices de maior, virava costas com um sonoro ponto final.
Estava feliz. Capaz de andar na linha de um texto. Disposto a parar em todos os pontos; a fazer parágrafos quando decidisse mudar de ideias. Comprometido a olhar para um lado e para o outro e atravessar depressa em cada vírgula. Estava feliz. Sem ponta de receio das curvas de uma qualquer interrogação, mas sem conseguir esconder a ansiedade sempre que se via a chegar perto de dois pontos.
Estendia um travessão para dar a palavra a outrém. Por vezes exclamava-se com os diálogos, noutras mostrava-se reticente. Se a conversa dava para o torto, impunha a sua razão. E em resposta a um alto aí, dizia alto aí ponto e vírgula.
Não sendo pessoa de grandes conflitos, para evitar chatices de maior, virava costas com um sonoro ponto final.
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terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009
Quando for grande quero ser um dia de férias
[PODIA TER SIDO UM SONHO]
A Amy Whinehouse foi a última a chegar. Estava mais gorda, mais alta, menos mulher e mais homem. Às quatro da manhã é até bem provável que aquela Amy fosse um homem vestido de mulher, porque não estou a ver a cantora a perder tempo numa entrada de esquina em Arcozelo, Vila Nova de Gaia. Vinha de mão dada com uma mulher de cabeleira loira.
O DJ desta vez não era bem um DJ. Era um homem vestido de enfermeira. Uma mão no prato, outra na garrafa de cerveja e pronto. Era como se estivesse a soro.
Por lá andaram duas borboletas muito mexidas de anca, como se fosse possível uma borboleta ter anca, mas aquelas duas borboletas tinham e faziam um favor aos nossos olhos: dançavam de pé no chão e alegria no ar.
Nessa noite perdi-me de amores por uma borboleta de corpo céu, com asas amarelas, mãos de fada... Lembro de me ter deitado com ela ao meu lado e de ter acordado num sobressalto, com medo do peso dos cobertores poder ferir de morte as asas daquele sonho adormecido ao meu lado. Sentei-me na cama, peguei nela e guardei-a em posição fetal na palma da minha mão. Dormiu como uma princesa. Tive de a deixar sózinha a meio da tarde. O trabalho pode ser trabalho mesmo num dia feriado. Vim para a rua a pensar no que quero ser quando for grande. No carro, a caminho do Porto, uma luz esclareceu-me as ideias. Quando for grande quero ser um dia de férias. Corro ao teu lado, na beira de um carreiro de margaridas. Tu voas feliz. Encontramo-nos mais à frente num beijo impossível. Como numa brincadeira de Carnaval. Ou numa noite que podia ter sido um sonho.
A Amy Whinehouse foi a última a chegar. Estava mais gorda, mais alta, menos mulher e mais homem. Às quatro da manhã é até bem provável que aquela Amy fosse um homem vestido de mulher, porque não estou a ver a cantora a perder tempo numa entrada de esquina em Arcozelo, Vila Nova de Gaia. Vinha de mão dada com uma mulher de cabeleira loira.
O DJ desta vez não era bem um DJ. Era um homem vestido de enfermeira. Uma mão no prato, outra na garrafa de cerveja e pronto. Era como se estivesse a soro.
Por lá andaram duas borboletas muito mexidas de anca, como se fosse possível uma borboleta ter anca, mas aquelas duas borboletas tinham e faziam um favor aos nossos olhos: dançavam de pé no chão e alegria no ar.
Nessa noite perdi-me de amores por uma borboleta de corpo céu, com asas amarelas, mãos de fada... Lembro de me ter deitado com ela ao meu lado e de ter acordado num sobressalto, com medo do peso dos cobertores poder ferir de morte as asas daquele sonho adormecido ao meu lado. Sentei-me na cama, peguei nela e guardei-a em posição fetal na palma da minha mão. Dormiu como uma princesa. Tive de a deixar sózinha a meio da tarde. O trabalho pode ser trabalho mesmo num dia feriado. Vim para a rua a pensar no que quero ser quando for grande. No carro, a caminho do Porto, uma luz esclareceu-me as ideias. Quando for grande quero ser um dia de férias. Corro ao teu lado, na beira de um carreiro de margaridas. Tu voas feliz. Encontramo-nos mais à frente num beijo impossível. Como numa brincadeira de Carnaval. Ou numa noite que podia ter sido um sonho.
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segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009
Ponto de vista
[DIZER SOBRE UM INSTANTE]
São esses os olhos que tens para mim hoje? Se sim deixa a pele trazer o anoitecer sobre cada um em simultâneo.
São esses os olhos que tens para mim hoje? Se sim deixa a pele trazer o anoitecer sobre cada um em simultâneo.
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